Não é Trump versus China… é EUA versus China

A disputa comercial entre os dois países pode significar a reversão – ao menos parcial – da globalização

Armando Sartori

O comportamento do presidente dos EUA, Donald Trump, em relação à China – e, de forma geral, quanto ao conjunto dos temas de política externa – não deve ser visto como uma mera questão de personalidade. Seu estilo, reflete, de um modo particular, uma questão essencial: a das divergências cada vez mais profundas entre as duas potências. “É um grande erro ver os atritos comerciais como uma questão puramente ligada a Trump”, afirma, em entrevista ao diário Valor Econômico, publicada em dezembro passado, Michael Pertis, professor de finanças da Universidade de Pequim. Segundo ele, “era algo que estava para vir há muito tempo, e mesmo se Hillary Clinton tivesse vencido a eleição, acho que hoje haveria tensões comerciais crescentes”. “Na verdade, acredito que estamos no começo de um processo de reversão parcial dos muitos anos de globalização”.

Para Pertis, “muito da conversa [do governo Trump] sobre comércio é realmente sobre restringir a [atuação da] China mais do que sobre comércio”. O economista avalia que a Alemanha, por exemplo, “é uma infratora bem pior que a China no comércio, mas consegue evitar o peso total das ações de Trump”. Segundo Pertis, “há um crescente sentimento anti-China ao redor do mundo, e as ações de Trump têm que ser vistas como parte disso”. Pertis enxerga “problemas reais” no regime de comércio global. “Eles têm criado distorções prejudiciais à economia global que forçam vários países, tanto superavitários quanto deficitários, a escolher entre dívida crescente e desemprego crescente”.

O professor da Universidade de Pequim parece ter razão em sua avaliação de que a disputa entre chineses e americanos é mais profunda do que parece, como demonstram alguns fatos ocorridos nos últimos meses. Em meados de janeiro deste ano, políticos democratas e republicanos apresentaram projeto de lei que proíbe a venda de chips e outros componentes avançados americanos para empresas chinesas consideradas “suspeitas”, como a Huawei e a ZTF, as duas maiores fabricantes de produtos de telecomunicação do país oriental. No caso da Huawei, a segunda maior produtora de celulares do mundo, há avaliações de que a empresa pode liderar mundialmente a implantação do padrão 5G de comunicação, extremamente importante para o tráfego de dados. A estimativa é de que o 5G alcance velocidade de transmissão de 10 gigabits por segundo (Gbps) – o equivalente a 10 vezes o limite alcançado pelo padrão mais avançado atual, o 4G – e também menor tempo de tráfego de informações (latência). No 5G, o tráfego de dados entre dois pontos em uma rede demoraria um milissegundo, enquanto no 4G essa demora é multiplicada por dez. A redução da latência é de grande importância para o desenvolvimento de veículos autônomos (sem necessidade de atuação humana na direção). Isso é crucial quando surgem situações de risco, como nos casos de um veículo situado à frente frear bruscamente ou de um pedestre imprudente atravessar a rua fora da faixa de segurança. Nessas ocasiões, o sistema que controla o autônomo tem que reagir muito rapidamente.

“Abrir mão da experiência chinesa para estabelecer redes 5G pode se tornar uma tarefa difícil no futuro”, afirma Gustavo Brigatto em artigo publicado no Valor em dezembro de 2018. Isso porque “exigiria que outros fabricantes investissem pesadamente em meios de produção e pessoal, com custo baixo e escala semelhantes aos da China”. Assim, ao tentar alvejar a Huawei, o governo Trump, na avaliação de Humberto Saccomandi, editor de política internacional do jornal, busca inibir “a inovação tecnológica e evitar que a China se torne logo líder em tecnologia de ponta”, como quer o plano “Made in China 2025”, que busca tornar o país líder em áreas como veículos elétricos, aeroespacial, robótica e outras.

Nessa linha de ação, o Escritório de Administração e Orçamento (OMB, na sigla em inglês), agência ligada diretamente à Presidência americana, divulgou na primeira semana do mês passado instruções estabelecendo medidas para garantir que órgãos governamentais dos EUA não façam negócios com Huawei, ZTF e outras empresas chinesas.

Relatório produzido pela Câmara de Comércio dos EUA e pela Câmara de Comércio Americana na China, entregue em janeiro último ao Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR, na sigla em inglês) – outra agência ligada a Trump –, conclui que há “um esforço profundo conjunto e continuado” das autoridades provinciais chinesas de seguir o “Made in China 2025”. Segundo artigo publicado pelo diário americano The Wall Street Journal, “o relatório reforça a mensagem que líderes empresariais americanos têm tentado transmitir a Pequim: a China não pode mais dar como certo o apoio do setor empresarial americano”. Já os chineses, segundo o artigo, consideram que os EUA exageram o significado do plano. O vice-primeiro-ministro da China, Liu He, “principal negociador comercial com os EUA, minimizou a importância” do “Made in China 2025” durante reuniões com grupos empresariais.

Na avaliação de Pertis, embora a China tenha mais a perder que os EUA com a guerra comercial, essa peleja não é a causa principal da desaceleração da economia chinesa, algo que ele afirma estar em andamento neste ano. As explicações sobre o porquê de a economia da China caminhar para esse estado estão, principalmente, relacionadas a fatores internos, afirma o economista. Já os efeitos dessa briga na economia americana começam a ser sentidos entre os agricultores, como a própria justificativa de Trump para a alta tarifária anunciada no início do mês passado revela. Ele alegou que os chineses não cumpriram a promessa, feita durante negociações, de comprar mais produtos agrícolas americanos. Os negócios nesse campo parecem ir mal para os EUA: as exportações da agricultura americana para a China caíram de 24 bilhões de dólares em 2014 para 9,1 bilhões no ano passado. Isso tem importância política, pois, na eleição de 2016, Trump obteve 60% de seus votos em áreas que dependem fortemente da produção agropecuária.

Tal questão faz parte de um conjunto de problemas que, projetado para o pleito do ano que vem, traz uma dúvida importante: é possível estimular o crescimento da economia americana e, ao mesmo tempo, conter a China? São dois objetivos anunciados por Trump, que, segundo ele, estariam conectados. Para Peter Goodman, jornalista do diário The New York Times, o presidente americano, se quiser se reeleger, terá que separar as coisas e optar por uma delas. “Um acordo comercial com a China deixaria os mercados satisfeitos, o que é uma opção atraente para quem disputa uma reeleição”, afirma ele. Já “manter um discurso agressivo contra a China pode até reduzir as perspectivas de crescimento, mas inflama a base eleitoral nacionalista do presidente”. Isso bastaria para garantir a reeleição?


Comente

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *