As tensões de agosto podem levar a uma guerra cambial?

Mulher caminha em frente a casa de câmbio, em Hong Kong (Imagem: AP Mulher caminha em frente a casa de câmbio, em Hong Kong (Imagem: AP

A China detém 1,1 trilhão de dólares em títulos do governo americano. Se resolver despejá-los no mercado – ameaça já feita no passado – o custo para os EUA pode ser alto

Armando Sartori

Iniciada no primeiro semestre de 2018, a guerra comercial entre EUA e China, que tem como arma principal a imposição de tarifas às exportações de um país por parte do outro, viveu um momento de maior tensão no mês passado. Ao longo de 2018, o governo do presidente americano, Donald Trump, tarifou em 25% um total de 250 bilhões de dólares das importações de produtos chineses. Já a China fez o mesmo com 110 bilhões em mercadorias dos EUA.

Após reuniões de negociações realizadas desde o final de 2018, no dia 1º do mês passado Trump anunciou tarifas de 10% sobre aproximadamente 300 bilhões de dólares em importações da China não atingidas pelas medidas de 2018 (com isso, praticamente o total das importações chineses sofreu aumento tarifário). A nova tarifação foi programada para entrar em vigor no dia 1º deste mês.

A justificativa de Trump foi a de que os chineses não cumpririam a promessa, feita durante as negociações, de adquirir mais produtos agrícolas americanos. Dais depois, no entanto, ele anunciou o adiamento para 15 de dezembro próximo da aplicação da medida a parte dos produtos chineses, alegando a necessidade de não afetar o comércio americano no período natalino.

No último dia 22, foi a vez da China anunciar a tarifação semelhante sobre 75 bilhões em exportações americanas, como retaliação. A aplicação se daria da mesma forma que a dos americanos, em 1º de setembro e em 15 de dezembro. No mesmo dia, Trump respondeu com o aumento das tarifas aplicadas no ano passado, de 25% para 30%. E com a elevação das tarifas sobre os 300 bilhões de dólares de 10% para 15%. A China ameaçou com nova retaliação.

Durante reunião de cúpula do Grupo dos 7, formado por Alemanha, Canadá, EUA, França, Itália, Japão e Reino Unido, realizada em território francês, o presidente americano declarou, no último dia 27, que autoridades chinesas teriam telefonado “para nossos negociadores comerciais”, o que levaria a “voltar à mesa de negociações”. Já o Ministério de Relações Exteriores da China informou não estar ciente de tal telefonema.

“Nós nunca vimos ninguém fazer o que Trump está fazendo”, declarou Chad Bown, do Instituto Peterson para Economia Internacional, ao diário The New York Times (NYT). “Parece cada vez mais que isso se tornou o novo padrão”. Ele avalia que a guerra comercial está entrando num período de rápida escalada. A elevação das tarifas sobre produtos importados da China pode ter um impacto médio adicional anual de 460 dólares por família americana, avaliam os pesquisadores Kirill Borusyak, da University College London , e Xavier Jaravel, da London School of Economy. A estimativa feita por eles mostra ainda que, se forem levadas em conta as elevações de tarifas sobre importações provenientes de México, Canadá e países europeus, deve ser acrescentado ao custo médio anual, outros 250 dólares. Há um ano, as tarifas pesavam, em média, 60 dólares por ano por família.

A média das tarifas impostas a importações chinesas atingiu 21,2%, ante apenas 3,1% quando Trump assumiu a Presidência americana em 2017. No conjunto, as tarifas americanas sobre bens estrangeiros nunca atingiram ponto tão alto desde os anos 1960, informa o NYT.

A China, que se tornara o principal parceiro comercial dos EUA nos últimos anos, caiu para a terceira posição no primeiro semestre deste ano, superada por México e Canadá. A compra de produtos chineses baixou 12% no período, enquanto as vendas de artigos americanos para a China diminuíram 19%.

Em meio a esse ambiente, após o anúncio de Trump de 1º de agosto, o yuan sofreu uma desvalorização frente ao dólar americano: a moeda chinesa foi cotada a mais de sete unidades por dólar pela primeira vez desde 2008. O fato espantou muitos dos que atuam no mercado financeiro e no comércio internacional. O Departamento do Tesouro americano chamou a China de “manipuladora de divisas”, expressão, segundo artigo publicado pelo semanário britânico The Economist, não utilizada contra nenhum país nos últimos 25 anos. Na visão dos americanos, segundo a revista, a China desvalorizou sua moeda para ganhar uma vantagem injusta na retaliação ao “surpreendente” anúncio feito por Trump, dias antes.

Com a desvalorização do yuan, ocorreu um barateamento das exportações chinesas, o que “pode neutralizar parcialmente a sobrecarga alfandegária anunciada por Washington”, escreveu o colunista Celso Ming no diário O Estado de S.Paulo. Ming, no entanto, vai além dessa possibilidade: ele introduz em sua análise sobre o conflito comercial entre os dois países “a hipótese de que a China relance no mercado grande volume de títulos do Tesouro dos EUA”.

Os chineses, segundo o articulista, têm 1,1 trilhão de dólares em títulos públicos americanos, “resultado da relação simbiótica entre EUA e China nos últimos 30 anos”. Dessa forma, os americanos “passaram a se abastecer de produtos mais baratos importados da China e esta usou seu enorme superávit comercial para financiar o déficit fiscal crescente dos EUA por meio da compra de títulos do Tesouro”.

Segundo Ming, em 2011 o Diário do Povo, jornal do Partido Comunista chinês, recomendou a venda dos títulos americanos como retaliação à venda de armas pelos EUA ao governo de Taiwan, ameaça que levou o governo dos EUA a mostrar “desconforto”.

Uma medida dessa natureza teria consequências importantes, entre as quais a de não haver a mesma demanda pelos títulos americanos, “o que dificultaria a cobertura do enorme déficit fiscal dos EUA”, lembra Ming. Segundo ele, “a reação global seria instantânea, o despejo de títulos no mercado derrubaria os preços de revenda e puxaria automaticamente o rendimento (yeld)”.

Ming dá o seguinte exemplo: um título com valor de face (valor original da emissão) de mil dólares, se negociado no mercado secundário por 950 dólares, dado que a taxa de juros é fixa, levaria o novo comprador a obter maior rendimento em relação ao valor investido. A explicação é simples: se, nesse exemplo, o título vence em 10 anos e tem juros de 5% ao ano, o comprador inicial receberá 50 dólares anualmente e, no vencimento do papel, os mil dólares – um total de 1,5 mil dólares, com rendimento de 50%.

Se, por qualquer razão, o comprador original repassar o título após determinado período, digamos, 5 anos, e vender o papel por 950 dólares (como no exemplo de Ming), terá obtido 1,2 mil dólares (950 + 250), o que significa um rendimento de 20% em relação aos mil dólares investidos inicialmente. Já quem adquirisse o título em segunda mão por 950 dólares, receberia, ao final dos 5 anos restantes, 1,25 mil dólares (mil dólares correspondentes ao valor de face mais 250 de juros). Assim, obteria rendimento de 31,5%.

Essa diferença de rendimento impactaria, no caso, o Tesouro americano, pois, quando lançasse novos papéis no mercado, teria que levar em consideração essa alta para atrair os interessados. O que levaria à elevação da taxa de juros dos papéis.

As disputas comerciais e possíveis repercussões no campo das divisas internacionais podem “derrubar ainda mais a atividade econômica ao redor do mundo”, afirma Ming. Nesse caso, “como fica o marisco Brasil nessa briga entre o mar e o rochedo?”. A redução da compra de grãos dos EUA pela China poderia ser positiva para o agronegócio do País. Mas, “a provável redução do comércio e a retração do PIB global provocariam nova redução dos preços das commodities (minerais e grãos), que poderiam neutralizar essa vantagem”.

Num cenário tão complexo, se depender das ideias de Ernesto Araújo, ministro de Relações Exteriores brasileiro, as possibilidades de auferir vantagem na disputa EUA-China podem, desde já, ser colocadas de lado. Artigo reservado de autoria do ministro defende, segundo Humberto Saccomandi, editor de política internacional do diário Valor Econômico, “a criação de um eixo entre os maiores países cristãos do mundo, EUA, Brasil e Rússia, contra a China”. Essa espécie de “cruzada” do século 21, no entanto, é uma “sugestão vazia, já que o Brasil não joga o jogo nesse nível, por não ter mecanismo de coerção, o hard power”, lembra Saccomandi. “O principal ativo da diplomacia brasileira era o soft power, isto é, o fato de sermos bem- vistos em quase todo o mundo”. Mas, conclui o jornalista, “isso está acabando”.


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