Rússia, “potência global”

Putin e Erdogan examinam um Sukhoi Su-57 (Imagem: AFP) Putin e Erdogan examinam um Sukhoi Su-57 (Imagem: AFP)

É como o semanário The Economist avalia o país de Putin após a intervenção militar bem-sucedida na Síria, ante a retirada de tropas dos EUA ordenada por Trump

Armando Sartori

Na última terça-feira, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, apresentou a seu colega turco, Recep Erdogan, durante visita a um festival aéreo realizado em um dos aeroportos de Moscou, o novo avião caça Sukhoi Su-57, de quinta geração. “Conversamos sobre cooperação em torno do jato Sukhoi Su-35 e sobre uma possibilidade de cooperação no novo Sukhoi Su-57”, disse o presidente russo aos jornalistas. Erdogan afirmou que seu país pretende manter com a Rússia “a solidariedade em várias áreas da indústria de defesa”.

Recentemente, os EUA suspenderam a permissão para que a Turquia comprasse o caça americano F-35, de quinta geração. A recusa se deu porque o governo turco adquiriu o sistema de defesa antiaéreo russo S-400, o que, para os EUA, é uma atitude incompatível, uma vez que a Turquia faz parte da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Segundo os americanos, se os turcos adquirissem os F-35, os russos acabariam tendo acesso a informações e à tecnologia do avião. Putin explicou que a Turquia alega ter sido “forçada a buscar o sistema antiaéreo russo porque seus parceiros da Otan, inclusive os EUA, não atenderam suas necessidades no setor de defesa”.

Se a compra de caças russos pela Turquia se concretizar, surgirá uma situação estranha. A Otan surgiu em 1949 como uma aliança militar dos países da Europa Ocidental com os EUA para se contrapor ao bloco de países liderado pela antiga URSS. A Turquia ingressou na Otan em 1952 e, atualmente, divide a base aérea de Incirlik, instalada em seu território, com os EUA.

A aproximação militar com os turcos é mais um passo da Rússia no sentido de consolidar sua presença no Oriente Médio, marcada recentemente pela intervenção na guerra civil da Síria. Por meio de bombardeios aéreos (os russos utilizam a base aérea síria de Hmeymim) e navais e incursões pontuais de suas forças especiais, a Rússia atua, desde 2015, no combate às forças do Estado Islâmico (EI) e também a grupos militares de oposição ao governo do presidente sírio, Bashar al-Assad, várias das quais recebem apoio americano. Envolvidos no conflito desde 2014, os americanos também alegaram combater o “terrorismo” – isto é o EI – ao empregarem cerca dois mil combatentes em apoio, principalmente, a milícias curdas que atuam no norte do país. No final do ano passado, o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou a retirada desse contingente, que teve início em abril último.

A retirada americana desse cenário, em contraste com o papel preponderante desempenhado pela Rússia para manter al-Assad no poder, foi altamente simbólica. Até porque o sucesso russo também contrastou com as recentes experiências dos EUA e aliados no Oriente Médio: a invasão do Iraque, segundo a revista semanal britânica The Economist, foi uma “sangrenta derrocada”; e a “campanha aérea” dos países ocidentais na Líbia, que resultou na queda de Muammar al-Gaddafi, “dividiu o país”. Mas, o mais importante, segundo a publicação, é que, ao “quebrar a hegemonia americana no Oriente Médio, a Rússia mostrou que não é meramente uma ‘potência regional’”, como o ex-presidente americano Barack Obama uma vez a denominou, mas “uma potência global”.

De acordo com The Economist, a Rússia “está ajudando também a sustentar o regime” do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro. Desde janeiro deste ano, após ser declarado oficialmente reeleito para o posto, Maduro enfrenta o agravamento de uma crise econômica e política que se arrastava há anos. Esse aguçamento se deu porque o presidente da Assembleia Nacional Venezuelana (o Parlamento do país), Juan Guaidó, se autodeclarou presidente interino. Guaidó recebeu o apoio dos EUA, de países sul-americanos e da maioria dos Estados-membros da União Europeia. Rússia, China, Turquia, Irã e Síria apoiaram Maduro.

A situação do presidente venezuelano tornou-se mais delicada após o governo Trump anunciar sanções econômicas à PDVSA, a estatal petroleira venezuelana. O secretário do Tesouro americano, Steve Mnuchin, disse que foram congelados 7 bilhões de dólares em ativos da estatal. Em março último, circularam informações sobre pressões exercidas pelo governo americano sobre empresas estrangeiras comercializadoras de petróleo e refinarias no sentido de não negociarem com a Venezuela, sob risco de sofrerem sanções.

Em meio a esse clima, aviões militares russos aterrissaram em solo venezuelano. O secretário de Estado americano, Mike Pompeo, protestou e relatou conversa mantida com o ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, a quem teria dito que seu país “não ficaria de braços cruzados enquanto a Rússia exacerba as tensões na Venezuela”.

Sistema antiaéreo russo S-300, comprado pela Venezuela (Imagem: Getty Images)

Na verdade, a Venezuela recebe ajuda militar russa há duas décadas, desde quando o país passou a ser presidido por Hugo Chávez. A Rússia é o principal fornecedor de material bélico ao Estado venezuelano, seguida pela China. Dos russos, os venezuelanos adquiriram, por exemplo, caças Su-30Mk2, tidos por especialistas como capazes de competir com os aviões de combate americanos mais avançados. E também sistemas de mísseis antiaéreos, como o S-300, versão anterior ao sistema comprado pela Turquia.

Sobre os equipamentos militares russos, Maduro declarou, durante entrevista concedida em janeiro deste ano à agência de notícias russa Sputnik, que “o presidente Vladimir Putin sempre nos forneceu assistência da Rússia em todos os sentidos” e que “em termos de cooperação militar, temos equipamentos russos do mais alto nível […] os sistemas de armas mais avançados”. De acordo com Maduro, “todo nosso pessoal está trabalhando [nos equipamentos], eles foram treinados na Rússia”.

Maduro também disse que “a China está financiando a produção de petróleo e espera aumentar o financiamento nos próximos meses”. “Contamos com o forte apoio da China e da Rússia para o desenvolvimento econômico da Venezuela”.


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