Uma corrida às cegas, em velocidade hipersônica

O Starry Sky-2, lançado de local no noroeste da China (Imagem: Science and Technology Daily) O Starry Sky-2, lançado de local no noroeste da China (Imagem: Science and Technology Daily)

Se Trump não renovar o acordo New START em 2021, esse é um possível cenário da disputa armamentista entre EUA e Rússia nos próximos anos

Armando Sartori

A ascensão de Donald Trump à Presidência dos EUA, em 2017, trouxe o risco de alteração do quadro dos armamentos nucleares, que parecia mais ou menos estabilizado àquela altura. Primeiro, Trump tirou os EUA do acordo nuclear internacional celebrado com o Irã em 2015. E, em outubro passado, ele anunciou a saída dos EUA do Tratado sobre Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF, na sigla em inglês), assinado com a então URSS nos anos 1980.

O quadro de relativa estabilidade se iniciou, segundo artigo do semanário britânico The Economist, publicado no início de julho passado, após a crise dos mísseis de Cuba , ocorrida em 1962, quando os EUA e a então URSS começaram negociações sérias sobre armas nucleares. “Em 1972, os dois países assinaram um acordo limitando o número de sistemas estratégicos de lançamento e um tratado para limitar defesas contra mísseis balísticos. Nas quatro décadas seguintes, assinaram sete outros grandes acordos nucleares”, explica o artigo. Assim, a capacidade de destruição combinada dos dois países diminuiu, desde meados dos anos 1970, do equivalente a 1,3 milhão de bombas como a lançada sobre Hiroshima para, aproximadamente, as atuais 80 mil bombas com o mesmo poder destrutivo. Como afirma a revista britânica, é uma situação “menos obscena, mas ainda horrível!”.

A saída dos EUA do INF, que levou ao encerramento do acordo no início deste mês, deixou no ar a seguinte questão: em 2021, os americanos renovarão por mais cinco anos o Novo Tratado de Redução de Armas Estratégicas (New START, na sigla em inglês), firmado em 2010 pelo presidente americano Barack Obama e por seu colega russo Dmitry Medvedev? Esse acordo define que cada país pode posicionar para uso imediato até 1.550 ogivas nucleares e 700 sistemas de lançamento (o estoque de ogivas de cada país é bem maior). O tratado tem um regime de inspeção que inclui 18 visitas anuais que cada país pode fazer às instalações nucleares do outro e ampla troca de dados entre ambos.

Para o presidente da Rússia, Vladimir Putin, se o New START deixar de existir, “não haverá nenhum instrumento no mundo para refrear a corrida armamentista”. O pior, de acordo com Alexandra Bell, do Centro para a Controle e Não-Proliferação de Armas, é que EUA e Rússia “ficarão sem uma visão realista das forças nucleares um do outro pela primeira vez em 50 anos, o que é incrivelmente perigoso”. Segundo ela, a política de inspeção prevista no New START permite que cada lado planeje seu armamento com confiança.

Uma das razões que teriam levado à denúncia do INF por parte dos EUA é a crescente ameaça que a China representaria aos interesses americanos na Ásia nos últimos anos. Assim, Trump teria desmanchado o INF – e poderia fazer o mesmo com o New START – por se tratar de um acordo bilateral com a Rússia. A partir daí, ele poderia propor um novo acerto, mais amplo, que incluísse os chineses – e também os norte-coreanos, afirma The Economist.

Mas, avalia a publicação, essa possibilidade dificilmente se concretizará. “Especialistas em controle de armas duvidam que o governo Trump tenha capacidade de conduzir negociações sérias com Rússia, China e Coreia do Norte simultaneamente”, avalia o semanário. Até porque, segundo o diário britânico The Guardian, o número de pessoas que trabalham atualmente na agência do Departamento de Estado americano responsável por tratar do desarmamento nuclear caiu de 14 para quatro.

A importância da China nesse jogo está ligada aos mísseis de alcance intermediário que desenvolveu, com os quais é capaz de atingir alvos americanos na Coreia do Sul e no Japão, por exemplo. Os EUA poderiam, segundo a revista britânica, utilizar sua base instalada na ilha de Guam, no Pacífico, e assim se contrapor aos chineses. A ilha, no entanto, é muito distante do território chinês, o que exigiria o desenvolvimento de um tipo novo de míssil. A China, por sua vez, não aceitaria a imposição de limites a seu arsenal de alcance intermediário. “Mas, sua competição com os EUA é sobre armas convencionais, mais do que sobre mísseis nucleares”, afirma a revista.

Dados do Instituto Internacional de Pesquisas para a Paz de Estocolmo mostram que, de fato, a força militar nuclear chinesa é pequena quando comparada com a de russos e de americanos. As estimativas são de que a Rússia possui 6,5 mil ogivas nucleares, entre prontas para uso e estocadas; os EUA, 6,2 mil; a França, 300; a China, 290; o Reino Unido, 200; o Paquistão, 150; a Índia, 130; Israel, 80; e a Coreia do Norte, 20. Ou seja, russos e americanos têm, juntos, 91,5% do total de ogivas nucleares do planeta.

Quanto à Rússia, uma preocupação clara dos EUA refere-se aos planos desse país para desenvolver novas armas, como o sistema hipersônico de mísseis (segundo The Economist, os russos, por sua vez, não veem com bons olhos o fato de os EUA converterem – em vez de destruírem, como estabelece o START – mísseis nucleares em convencionais).

Artigo publicado pela revista Science em julho último afirma que os mísseis hipersônicos podem se tornar plena realidade em meados da próxima década. Esse tipo de projétil seria capaz de voar e manobrar a velocidades entre 5 mil quilômetros e 25 mil quilômetros horários, e viajar em diferentes faixas de altitude, inclusive a 100 quilômetros acima da superfície terrestre, beirando a órbita espacial. Essas características causam enormes embaraços aos sistemas de defesa, já que, entre outras coisas, a velocidade hipersônica dificulta a avaliação do alvo que o projétil atingirá até muito pouco tempo antes que isso ocorra.

Além disso, devido à alta velocidade, o poder destrutivo do míssil hipersônico não depende necessariamente do transporte de uma carga explosiva, convencional ou nuclear, como ocorre com os mísseis atuais. Assim, funcionaria como uma bala de fuzil, que arrebenta os obstáculos que encontra pela frente ao transformar a energia de seu movimento (cinética) em energia térmica, que se dissipa explosivamente.

Segundo Iain Boyd, professor de engenharia aeroespacial da Universidade de Michigan, o desenvolvimento do míssil hipersônico não requereu nenhum salto tecnológico, mas “uma combinação de progressos constante associada a forte motivação política”.

Boyd avalia que na Rússia, “onde se trabalha em hipersônica há décadas como nos EUA”, parecem ter ocorrido sucessos recentes nos testes de mísseis. A China também participa desses avanços – o país “observou e aprendeu e, a um determinado momento, começou a investir em hipersônica”. “Desde 2015 tornou-se evidente que havia um significante progresso, ao menos em número de testes de voo concluídos, que indicava que a China estava superando os esforços desenvolvidos pelos EUA”, afirma Boyd. No dia 5 deste mês, a Academia de Aerodinâmica Aeroespacial da China informou ter realizado teste do Starry Sky-2, um tipo de projétil que viaja a velocidade hipersônica.

Para responder aos progressos de russos e chineses, Trump pressiona para que as armas hipersônicas sejam desenvolvidas o mais rapidamente possível. Para isso, propôs no Orçamento do ano fiscal de 2020 uma verba de 2,6 bilhões de dólares, destinada às Forças Armadas, com esse objetivo. Valor que, segundo reportagem publicada por The New York Times Magazine, pode ser elevado para 5 bilhões de dólares anuais nos Orçamentos seguintes.


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