Largada para uma nova Guerra Fria?

Lançamento do míssil em San Nicolás (imagem: Departamento de Estado dos EUA) Lançamento do míssil em San Nicolás (imagem: Departamento de Estado dos EUA)

Fim de tratado de mísseis de alcance intermediário, provocado pelos EUA, pode voltar a acelerar o ritmo do crescimento armamentista internacional

Armando Sartori

Os governos de Rússia e China condenaram o lançamento ocorrido no último dia 19, para fins de teste, de um míssil americano. O disparo se deu passadas pouco mais de duas semanas da extinção do Tratado sobre Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF, na sigla em inglês), celebrado pela então URSS e os EUA ainda nos anos 1980. O vice-ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergei Riabkov, declarou que o teste revelaria que os americanos vinham desenvolvendo o projétil há algum tempo, apesar de estar enquadrado entre dispositivos proibidos pelo INF.

O INF morreu no último dia 2. Era visto como um dos mais importantes acordos sobre o controle de armas nucleares. Foi estabelecido em 1987 por Ronald Reagan, presidente dos EUA, e Mikhail Gorbachev, chefe de Estado da URSS. O INF adquiriu tal importância porque, pela primeira vez desde que teve início a corrida nuclear, ainda no final dos anos 1940, os dois lados, como avalia artigo publicado pelo diário espanhol El País em fevereiro passado, “se comprometeram não só a limitar seus arsenais nucleares como também a destruí-los”. Com isso, 27 mil ogivas nucleares e quase toda uma categoria de mísseis foram descartadas por ambos os lados, o que resultou em que o número total de mísseis caísse de 63 mil em 1986 para 8,1 mil atualmente.

O tratado se restringiu aos mísseis de alcance entre 500 quilômetros e 5,5 mil quilômetros, tanto balísticos como de cruzeiro, disparados por lançadores terrestres e não incluiu os lançados por aviões, navios e submarinos. Os mísseis enquadrados pelo INF têm, segundo o artigo, duas características importantes: alcançam seus alvos, em média, em menos de 10 minhotos após disparados – o que ocorre a uma distância segura da linha de frente de batalha – e são menos dispendiosos que os não-terrestres.

O INF entrou em fase terminal a partir do anúncio, pelo presidente dos EUA, Donald Trump, em fevereiro último, de que seu país o estava abandonando. O presidente da Rússia (herdeira da URSS), Vladimir Putin, fez o mesmo a seguir. A alegação de Trump foi a de que os russos não respeitariam o tratado. Os americanos se queixavam disso desde a administração do ex-presidente Barack Obama (2009-2017), apontando o desenvolvimento pelos russos de novos tipos de mísseis que seriam ilegais sob as regras do INF. Mais recentemente, o alvo das queixas foi o míssil terrestre de cruzeiro SSC-8 (conhecido na Rússia como 9M729), instalado em duas bases militares estabelecidas nas proximidades do Mar Cáspio, que seria proibido pelo INF, o que não foi reconhecido por Moscou. E os russos, por sua vez, queixam-se da instalação, em 2015, de um sistema de mísseis americanos na Romênia, que violaria o tratado.

Ao tomar a iniciativa de atacar o acordo e anunciar a possibilidade de abandoná-lo, ainda em outubro do ano passado, Trump, além de mencionar a Rússia, envolvida diretamente na discussão, citou igualmente a China, que, por não fazer parte do INF, estaria livre para instalar projéteis de alcance intermediário em seu território. Algo encarado pelos EUA como uma ameaça potencial às bases militares americanas instaladas em países aliados na Ásia, entre outros alvos na região.

De acordo com artigo publicado pela revista americana The Atlantic, o INF resultou de uma nova preocupação dos EUA surgida nos anos 1970. Até ali, o temor americano estava relacionado aos mísseis balísticos intercontinentais soviéticos. A novidade que assustou os americanos foi a instalação de mísseis balísticos de alcance intermediário, capazes de alvejar os aliados dos EUA da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) na Europa Ocidental de foma muito rápida. “Os EUA responderam com o que a lógica inexorável da Guerra Fria exigia: instalando mísseis similares na Europa Ocidental com capacidade de atingir a URSS”, afirma o artigo. “Mas, simultaneamente, iniciaram negociações que culminaram com o acordo de 1987 entre Reagan e Gorbachev”. Pelos termos do INF, tanto EUA quanto URSS estavam obrigados a eliminar permanentemente todos os mísseis balísticos e de cruzeiro com alcance intermediário. Em conjunto com o Tratado sobre Reduções de Armas Estratégicas (START, na sigla em inglês), firmado em 1991, que reduziu drasticamente o número de armas nucleares de longo alcance, o INF contribuiu decisivamente para desacelerar o ritmo da corrida armamentista entre os dois países.

A iniciativa do governo Trump parece ter um protagonista: John Bolton, conselheiro de Segurança Nacional. Segundo The Atlantic, na década passada, como subsecretário para Controle de Armas e Assuntos de Segurança Internacional do Departamento de Estado, Bolton se opôs aos acordos de controle internacional de armas e de não-proliferação nuclear. No final de 2001, ele foi encarregado pelo Departamento de Estado de negociações com o governo russo, encabeçado por Putin, que resultaram na retirada dos EUA do Tratado sobre Mísseis Antibalísticos (ABM, na sigla em inglês), acordo celebrado com a URSS para limitar o número de mísseis antibalísticos utilizados na defesa de certos locais contra mísseis com carga nuclear.

Segundo o artigo de The Atlantic, Bolton considera esse tipo de controle “como completamente ineficaz ou uma intolerável violação da liberdade de ação dos EUA”. Bolton também participou, na década passada, de conversações com a Coreia do Norte, na época engajada num acordo internacional relacionado a seu programa nuclear, que resultaram no rompimento desse acerto. E, mais recentemente, ele também teve papel importante na saída dos EUA do acordo internacional com o Irã sobre o programa nuclear daquele país. “Em 2011, bem antes de os EUA acusarem a Rússia de violar o INF, Bolton argumentava no sentido de ou enquadrar novos países no tratado ou acabar com o acordo, uma vez que ele reduzia a capacidade americana de conter potências nucleares rivais, como a China, e aspirante a essa posição, como Irã e Coreia do Norte”.

Para compreender as razões que levaram à denúncia do INF por parte de Trump, é preciso levar ainda em consideração dois fatos ocorridos neste mês. O primeiro é a declaração, dada pouco depois do fim formal do acordo, por Mark Esper, secretário de Defesa dos EUA. Perguntado por jornalistas, durante visita à Austrália, se considerava instalar mísseis terrestres de alcance intermediário na Ásia, ele não titubeou: “Sim, eu gostaria”. Esper disse também que seu governo queria que isso ocorresse rapidamente, mas reconheceu que “essas coisas tendem a demorar mais do que se espera”.

O outro fato foi o teste realizado pelos americanos, com o lançamento de um míssil de cruzeiro terrestre com alcance superior a 500 quilômetros, que se enquadraria nas proibições do INF. Riabkov avaliou que os EUA desenvolviam o novo tipo de míssil há muito tempo, pois seria improvável que em um “tempo tão curto [desde o fim do INF]” tenham preparado o teste. Com isso, afirmou Riabkov, os americanos mostrariam suas intenções de “estender o potencial desestabilizador” a uma área que até agora tinha regras bem estabelecidas. Na mesma ocasião, Geng Shuang, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, falou de “uma escalada de enfrentamentos militares”. Segundo ele, o teste “terá sérias consequências negativas para a segurança regional e internacional”.

O disparo foi realizado na ilha de San Nicolás, na costa do estado da Califórnia. De acordo com o Departamento de Defesa dos EUA, o veículo testado é “uma variante do míssil de cruzeiro de ataque terra-terra Tomahawk”.


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