O que mudou na Estratégia de Segurança Nacional dos EUA após a eleição de Trump

Para o pesquisador José Luís Fiori, os americanos abriram mão do “cosmopolitismo liberal” e optaram pelo uso “da força e das armas para impor seus interesses” em todo o planeta

Armando Sartori

Em dezembro de 2017, o presidente dos EUA, Donald Trump, sem sequer completar os primeiros 12 meses de seu mandato, divulgou a “Estratégia de Segurança Nacional”. Esse documento, lançado periodicamente pelos presidentes americanos, é apresentado para definir “os principais objetivos estratégicos dos EUA, junto com a identificação de seus principais inimigos e concorrentes de todo tipo em todos os lugares do mundo”, escreveu José Luís Fiori, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), no epílogo do livro Sobre a guerra (Editora Vozes, 2018). A obra, da qual Fiori é o coordenador, traz 14 capítulos, produzidos por pesquisadores do Programa de Economia Política Internacional da universidade.

O documento divulgado por Trump foi preparado, em conjunto, pelo Departamento de Estado, pelo Departamento de Defesa, pelo Departamento do Comércio e pelo Departamento do Tesouro, pela Agência Central de Inteligência (CIA) e por todas as agências de informação do governo americano.

“Do ponto de vista estritamente teórico, o novo documento estratégico dos EUA se situa na oposição ao ‘cosmopolitismo liberal’ introduzido no cenário internacional pelo presidente americano Woodrow Wilson, durante as negociações da Paz em Paris, depois do fim da Primeira Guerra Mundial”, explica Fiori.

Wilson apresentou, no início de 1918, uma proposta de 14 pontos, dos quais o último parece exprimir o “cosmopolitismo liberal”. “Deverá haver uma associação geral de nações constituída sob a égide de convenções formais, tendo como meta o fortalecimento de garantias mútuas de independência política e integridade territorial aos pequenos e grandes Estados”, foi o proposto pelo então presidente americano. Essa ideia está na base da Sociedade das Nações (SN), criada em abril de 1919 – não custa lembrar que a Rússia bolchevique foi excluída tanto das negociações de paz quanto da SN. À medida que os prenúncios da Segunda Guerra Mundial foram se transformado em realidade, a SN foi perdendo força, até ser dissolvida em 1942. Em 1946, as responsabilidades da SN foram passadas à Organização das Nações Unidas (ONU).

Mas, continua Fiori na análise da nova estratégia americana, “do ponto de vista prático”, o documento apresentado por Trump “representa uma ruptura revolucionária com relação ao passado da política externa dos EUA do século XX” e um “gigantesco ponto de interrogação” com relação ao futuro desse país e de todo o sistema internacional.

Para o pesquisador, a parte “menos inovadora” do documento apresenta os objetivos americanos. São eles: “proteger o povo americano e seu modo de vida”; “promover a prosperidade econômica e a liderança tecnológica americana”; “promover a paz mundial através da força”;“avançar a influência global dos EUA”.

Ali também estão apontados os principais inimigos ou concorrentes dos EUA na disputa para cumprir esses objetivos: Rússia, China, Coreia do Norte e Irã. Os dois primeiros países são considerados grandes “potências revisionistas”, que pretendem alterar a hierarquia do poder mundial. Os dois últimos, são “estados predadores”, que os americanos enxergam como, segundo Fiori, ameaças a “seus vizinhos” e ao “equilíbrio geopolítico do Nordeste da Ásia e do Oriente Médio, respectivamente”. Há ainda o “‘terrorismo jihadista” e os vários tipos de organização criminosa que atuam internacionalmente para propagar a violência por meio do tráfico de armas e de drogas.

Fiori aponta que a grande novidade da versão de 2017 “está escondida nas entrelinhas do documento, onde aparecem suas premissas e definições fundamentais”. As balizas que norteiam “a nova visão do mundo da política exterior americana” são, segundo a análise do pesquisador, as seguintes:

  • O abandono da ideia do sistema mundial como “lugar de uma luta global entre o ‘bem’ e o ‘mal’” – em seu lugar aparece “um espaço de competição permanente pelo ‘poder global’ entre Estados nacionais soberanos”.

  • O reconhecimento de que os valores americanos “não são universais” e de que “nada assegura a ‘vitória final’ dos valores americanos num mundo onde cada povo tem sua própria cultura e seus valores éticos particulares”.

  • A partir daí se dá a admissão, implícita, de que não há “‘valores universais’ nem existe um ‘destino histórico convergente’ de toda a humanidade”, o que levaria à desistência “do velho projeto messiânico de conversão de todos os povos aos ‘valores éticos ocidentais’”.

  • A disposição dos EUA de, daqui por diante, competir e negociar com os demais Estados nacionais “com base apenas nos seus interesses nacionais e sempre a partir de uma ‘posição de força’”.

  • Isso conduz à conclusão de que o país deixa de lado a ideia “de uma hegemonia ética e cultural universal” e opta “pelo uso da força e das armas, se necessário, para impor seus interesses em todos os tabuleiros geopolíticos e geoeconômicos do mundo”. Mesmo que isso se dê por meio “da mudança de governos e regimes que sejam considerados uma ameaça política ou econômica” a seus interesses.

  • Por fim, há a proposição americana de “retomar a liderança mundial do processo de inovações tecnológicas em todos os campos do conhecimento e, em particular, no campo da guerra e dos armamentos atômicos”. Além disso, os EUA consideram ser seu direito “utilizar sua economia e suas sanções econômicas como instrumento de guerra”.

Em síntese, afirma Fiori, os EUA estão “se propondo a deixar para trás seu ‘cosmopolitismo liberal’ e sua ‘utopia globalista’ do século XX” e pretendem “levar à frente uma corrida tecnológica e militar contínua, dentro de um sistema instabilizado pela ideia de que a guerra é um instrumento regular de solução de conflitos e que pode ser travada a qualquer momento e em qualquer lugar, contra qualquer rival, inimigo ou antigo aliado”.

O pesquisador avalia que, na década de 1990, com o desmanche da URSS e o fim da Guerra Fria, os EUA “alcançaram uma centralidade dentro do sistema mundial e um nível de poder global sem precedentes na história da humanidade, junto com a aparente globalização das regras e instituições criadas pela ordem liberal do século XX”. Contraditoriamente, “essa mesma expansão do poder americano contribuiu decisivamente para o ‘ressurgimento’ da Rússia, para o salto econômico da China e para a ascensão de várias outras potências regionais”, que passaram a questionar “o novo mundo liberal e unipolar americano”. Destacaram-se a Rússia, “no campo militar”, e a China, “no campo econômico”, além de Irã, Turquia, Coreia do Norte.

Nesse novo quadro, os EUA “se assumem como um ‘povo escolhido’ e abdicam de sua ‘universalidade moral’, para alcançar a condição de ‘império militar’ com a pretensão de um ‘poder global’”, escreve o pesquisador. “Mas, ao mesmo tempo, reconhecem e valorizam o sistema interestatal e se propõem a sustentar uma competição permanente com as outras grandes potências”, numa luta – sem árbitros e posições neutras – em que “cada país terá que fazer valer seus interesses nacionais por si mesmos através do aumento contínuo de seu poder econômico e militar, e através de uma corrida tecnológica que deve levar a humanidade a um patamar sem precedentes de inovação armamentista”.

Assim, a proposta de Trump, apresentada durante a campanha eleitoral, de aproximação ou acordo entre seu país e a Rússia, é muito difícil de ser implementada. Até porque, segundo Fiori, “sem o ‘inimigo russo’, o ‘império militar’ americano perderia sua ‘bússola’ e teria que sucatear parte importante de sua infraestrutura global”. O professor da UFRJ avalia que “o ingresso da China é a grande novidade do sistema interestatal nas duas primeiras décadas do século XXI e representa, de fato, uma ameaça de médio prazo à supremacia econômica e militar dos EUA no Leste Asiático e na Ásia Central”. No entanto, segundo ele, ainda não se trata de uma ameaça em escala global, até porque a China “não dispõe da capacidade atômica russa de destruir o território americano”. Por isso, “o enfrentamento dos EUA com a Rússia ainda seguirá sendo o grande guarda-chuva e a principal justificação do uso cada vez mais frequente e generalizado, pela política externa americana, das chamadas guerras de ‘quarta geração”, ou ‘híbridas’, dentro dos países da periferia do sistema”.

O termo “guerra de quarta geração” refere-se aos conflitos ocorridos no território de cada Estado, que se apresentam de diversas formas e combinações: luta de guerrilha, terrorismo, desinformação, sanções econômicas por parte de outros países etc. “Esse tipo de guerra só passou a ser utilizado pelos EUA como instrumento regular e frequente de sua política externa a partir das ‘revoluções coloridas’ da Europa Central e da ‘primavera árabe’ do norte da África, generalizando-se para quase todas as partes do mundo, inclusive para a América do Sul”.

Para Fiori, a guerra de quarta geração – que “não envolve necessariamente bombardeios, nem o uso explícito da força” – tem como objetivo principal “a destruição da vontade política do adversário através do colapso físico e moral do seu Estado, da sua sociedade e de qualquer grupo humano que se queira destruir. Um tipo de guerra no qual se usa informação mais do que a força, o cerco e as sanções mais do que o ataque direto, a desmobilização mais do que as armas, a desmoralização mais do que a tortura”.

Em palestra realizada no início de abril último no Centro de Estudos da Escola Nacional de Saúde Pública, em evento de lançamento de Sobre a guerra (assista o vídeo), Fiori destacou o poder das sanções econômicas americanas. “Não é a que a sanção econômica seja uma novidade, já havia sanção econômica na Grécia Antiga”, disse ele. “A novidade é o gigantesco poder de sanção que eles têm. Estão estrangulando lentamente as economias da Venezuela, do Irã, assim como fizeram com a da Coreia do Norte. Você estrangula pelo lado da finança e, depois, aponta a incompetências da política econômica dos governos atingidos pelas sanções”.


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