Um império diferente

(Imagem: Images.com/Corbis) (Imagem: Images.com/Corbis)

Os EUA não seguiram o modelo de colonização das potências europeias e preferiram adotar Estados satélites como alternativa. Não sem enfrentar contradições

Armando Sartori

No prefácio ao livro Estados Unidos, o novo imperialismo, de autoria de Victor Kiernan, o historiador britânico Eric Hobsbawm chama a atenção para “três linhas de continuidade” que ligariam o país, “da era da Guerra Fria à tentativa de afirmação isolada de supremacia mundial desde 2001”.

“A primeira”, relata Hobsbawm, “é a posição de dominação internacional mantida pelos EUA, que se tornou global desde o colapso da URSS”. “Essa hegemonia não mais se apoia no mero tamanho da economia americana, que, embora ainda seja grande, declinou em relação de dominância do pós-guerra”. O historiador chama a atenção para o fato de que os EUA “continuam representando um terço do PIB global”, mas tornaram-se responsáveis por apenas um quarto do valor da produção industrial. “O centro do mundo industrial deslocou-se rapidamente para o lado oriental da Ásia”. O texto de Hobsbawm foi escrito na primeira metade da década passada — dados mais recentes, divulgados pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), indicam que, em 2010, os EUA ainda mantinham a dianteira na indústria global, com 20,2% do valor adicionado da indústria de transformação (VTI), ante 11,6% da China e 11,4% do Japão. Em 2017, a situação se alterou: a China alcançou 24,8% do VTI, assumindo a vanguarda, enquanto os EUA caíram para 15,3%, seguidos do Japão, com 9,1%.

Hobsbawm destaca que, “diferentemente dos antigos países imperialistas, e da maior parte dos países desenvolvidos, os EUA deixaram de ser exportadores líquidos de capitais, ou os maiores participantes do jogo internacional de aquisição ou estabelecimento de empresas em outros países”. Assim, “a força financeira do Estado [americano] depende da contínua disposição de outros, principalmente de países asiáticos, em manter um deficit fiscal que, sobre outra circunstância, seira intolerável”.

A influência econômica americana se apoia, em grande parte, no pepel do dólar como moeda mundial, nas conexões de empresas americanas estabelecidas durante a Guerra Fria, especialmente quando se trata do setor de defesa. O papel dessas atividades é poderoso e, “provavelmente”, se reduzirá “apenas lentamente” ao correr do tempo.

Mudança mais visível e imediata ocorre com a influência política dos EUA no exterior, que, no passado, se apoiava numa coalizão contra os soviéticos e o “comunismo”. Segundo Hobsbawm, tal influência não se mantém em bases estáveis no presente desde a queda do Muro de Berlim. “Apenas o relativo e absolutamente enorme poder tecnológico militar dos EUA estão acima de qualquer desafio previsível por parte de um Estado ou uma coalizão”, o que faz do país “a única potência capaz de intervir militarmente, sem aviso prévio, em qualquer parte do mundo” – como ocorreu na década passada no Afeganistão e no Iraque. Apesar disso, o resultado de tais ações não foi a imposição de um “controle efetivo” sobre tais países.

Outro tendência que permanece na política externa dos EUA desde o fim da Guerra Fria é a preferência por “Estados satélite ou protetorados a colônias formais”. Os americanos tiveram uma breve experiência de colonização ao estilo europeu no final do século 19, quando tomaram as Filipinas da Espanha, após uma guerra e, a seguir, enfrentaram nova luta contra os nacionalistas filipinos. Dessa experiência sobrou a instalação de bases navais tanto no Pacífico como no Caribe, cono as implantadas anteriormente pelos britânicos.

“O império americano consiste, portanto, em Estados tecnicamente independentes seguindo, na essência, os comandos de Washington”. Mas essa configuração tem suas contradições: dada a independência formal dos Estados aliados, “isto exigia contínua e substancial prontidão em exercer pressões diretas e indiretas em seus governos e, se preciso (como nas minirrepúblicas da região caribenha), periódicas e unilaterais intervenções armadas”.

Por último, Hobsbawm destaca a tendência de os governos americanos buscarem, de forma recorrente, apontar inimigos que ameaçariam, imediata e mortalmente, o american way of life (o modo de vida americano). “O fim da URSS eliminou o candidato mais óbvio”, mas logo o Islã se tornou o novo alvo mais destacado, no contexto de uma “choque de culturas” entre o Ocidente e culturas relutantes em aceitar certos valores. “Por isso, o enorme potencial político dos ataques terroristas da Al-Qaeda no 11 de Setembro foi prontamente reconhecido em e explorado em Washington pelos senhores do mundo”.

Hobsbawm aponta para a decisão do grupo liderado pelo então presidente George W. Bush de aproveitar a oportunidade do 11 de Setembro “para declarar a hegemonia dos EUA como senhores do mundo” e anuncia a estratégia da “intervenção preventiva” nos países que fossem considerados ameaçadores. O historiador avalia, no entanto, que tal grupo passou a enfrentar a oposição de políticos como Henry Kissinger e Zbigniew Brzezinski, veteranos dos tempos da Guerra Fria, que tinham objetivos semelhantes. O problema para esses oposicionistas seria a falta de clareza de Bush e seus amigos em como alcançar a hegemonia mundial. Os fiascos nas intervenções no Afeganistão e no Iraque demonstrariam isso.


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