Gênero e Sexualidade (14) – A trajetória de uma mulher trans

Foto: casadamaite.com Foto: casadamaite.com

Para Maite Schneider, nome importante na luta contra a transfobia no Brasil, a vida de ativista é consequência de sua transexualidade

Catharina Rocha

Ela já debateu com o presidente da República, Jair Bolsonaro, quando este era deputado federal e denunciou o que denominou de “kit gay”. Não foi seu único envolvimento com a política: ela também se candidatou à Câmara de Vereadores de Curitiba, mas não se elegeu.

Maite Schneider, mulher trans, de 46 anos de idade, é militante e representante de alguns dos maiores movimentos de aceitação e visibilidade do transexualismo. Nos últimos 20 anos, envolveu-se na fundação de organizações como a Associação Brasileira de Transgêneros (Abrat), o Transgrupo Marcela Prado, o Instituto Paranaense e na organização de projetos como o Transempregos, que faz a inserção de pessoas trans no mercado de trabalho (clique aqui).

 

Maite também é idealizadora do portal casadamaite.com, o mais antigo portal de diversidade da internet brasileira, criado em 1997, e que conta atualmente com mais de 30 mil visitantes por dia.

Nomeada ao nascer como Alexandre, Maite é filha do meio de uma família abastada de Curitiba. Durante a infância, sempre se comparava ao irmão e à irmã: “sempre soube que não era igual a meu irmão, me sentia muito mais conectada à minha irmã e não entendia o porquê”.

“Quando muito nova, as crianças de minha escola me chamavam de ‘bichinha’, e eu adorava aquilo, porque não entendia o que significava. Meu pai e meu irmão, então, me explicaram o preconceito por trás da situação”, conta Maite.

Na adolescência, aos 16 anos, o pai de Maite a levou a um psiquiatra, que já tinha tratado de questões de transtorno de gênero. “Foi então que ouvi pela primeira vez a palavra transexualismo e ele me explicou o que se passava comigo”.

Diferentemente de muitos outros casos de pessoas transexuais, desde o início Maite teve o amparo da família. Inicialmente, existia um sentimento de culpa por parte dos pais, achando que tinham errado em algum momento. “O caminho é tortuoso, não é tão tranquilo. Mas nunca teve repulsa, rejeição”.

Maite passou por 14 cirurgias para mudar de sexo. Duas a expuseram ao risco de morte: na primeira, tentou retirar, sozinha, os testículos; na segunda, foi e voltou do Paraguai no mesmo dia, em uma nova tentativa de eliminá-los.

Sobre sua militância, Maite diz que ocorreu “de forma muito orgânica, nunca tive um gatilho que me fizesse pensar ‘bom, agora vou me envolver na causa’. A partir do momento em que passei a me entender como mulher, já pensava nas pessoas que tinham bem menos oportunidades que eu e passavam pelo que passei.”

“Fui uma das primeiras mulheres trans, que estava longe da vida artística, a se expor e falar sobre sua identidade de gênero. Na época em que me reconheci trans, com dezesseis anos, não havia muito acesso para as pessoas que eram como eu e precisavam se identificar com alguém e foi muito importante que me posicionasse do jeito que me posicionei. Quando vi, estava sendo convidada para entrevistas, como no programa do Jô Soares ou no programa da Silvia Poppovic… Hoje, acredito que a exposição da minha imagem foi algo muito relevante”.

Maite avalia que, mesmo timidamente, o País tem avançado quando se fala em transexualidade. Em especial, a partir de 2008, quando o Sistema Único de Saúde (SUS) começou a atender aqueles que optaram pelo processo transexualizador. O processo foi instituído por meio da Portaria nº 1.707/GM/MS e da Portaria nº 457/SAS/MS e regulamenta os procedimentos para a readequação sexual no sistema público de saúde, atendendo as pessoas que sofrem com a incompatibilidade de gênero, quando não há reconhecimento do próprio corpo em relação à identidade de gênero (masculino ou feminino).

Em 2014 Maite decidiu encarar a vida política e candidatou-se pelo PV a vereadora em Curitiba, porém não chegou a ser eleita.

“Entrei no meio político porque, na época, em Curitiba, a onda do conservadorismo estava altíssima. Entrei justamente para retirar votos dos candidatos mais conservadores. Usava meu discurso para que as pessoas considerassem votar em mim e não em determinados nomes que prejudicavam nossa luta. Era pelo menos ‘um não voto’ para determinadas pessoas.”

Para Maite, a vida política existia antes mesmo de sua candidatura. “Entendo como vida política tudo o que fazemos em nosso dia a dia. Agora, na politicagem, que era estar diretamente envolvida com algum partido, tive que me aproximar de todo o tipo de partido e de todo o tipo de candidato. Sempre visei uma entrada mais democrática, até mesmo com todo o tipo de credo religioso etc., porque quero me fazer ouvir e me fazer presente”.

Para enfrentar a “onda conservadora”, que “só vem se intensificando”, Maite propõe a inserção de “novos nomes para que a luta trans não se perca no meio político e para que os direitos da sigla LGBTQ+ sejam conquistados”. “A entrada de candidatas como a Erica Malunguinho, uma das deputadas estaduais mais bem votadas em São Paulo, é justamente uma forma de resistência em relação ao período político atual. O fato de existirem nesses espaços pessoas que representam nossa luta é muito importante.”

“Acredito também que o diálogo seja primordial, com quem quer que seja. Eu já participei de um debate com o próprio Bolsonaro, porque estava disposta a expor minhas ideias e ideais”. Isso ocorreu em 2011, quando participou do programa “Super Pop”, da RedeTV, numa discussão sobre o “kit gay” (clique aqui).

Maite disse, na ocasião, que “o ‘kit gay’ é, na realidade, um kit contra a homofobia e feito para escolas do segundo grau”. E esclareceu que “os vídeos [que compunham o kit] não servem para incentivar crianças a estarem propensas à homossexualidade e à transexualidade”, como Bolsonaro propagava, mas, “para esclarecer para elas sobre a diversidade que existe no mundo”.

No programa, Bolsonaro afirmou que teve “funcionários homossexuais” que trabalharam com ele e que “a maioria dos homossexuais que existem, as pessoas nem sabem que são [homossexuais]. Mas estão cuidando de suas vidas, trabalhando de dia e dormindo à noite. Ao contrário de uma minoria, que quer ‘posar’ de diferente e que trabalha à noite e dorme de dia”.

O atual presidente também procurou esclarecer sua declaração, de que “nunca aceitaria um filho gay”. Disse que, “com quatro filhos homens, uma enteada e uma filha, não gostaria que nenhum deles fosse homossexual. E acredito que nenhum pai também”.

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