Gênero e Sexualidade (11) – De Kátia a Edgar, o LGBT nas prefeituras

Kátia Tapety (esq.) e Edgard de Souza (dir., de óculos) - Divulgação Kátia Tapety (esq.) e Edgard de Souza (dir., de óculos) - Divulgação

Do interior do Piauí, na década de 1990, ao interior paulista, mais recentemente

Sônia Mesquita

Se em outubro passado os capixabas elegeram o primeiro senador assumidamente homossexual (leia aqui), não custa lembrar que a eleição de políticos pertencentes à comunidade LGBT se iniciou há mais tempo e fora dos grandes centros urbanos. Em 1992, Kátia Tapety foi a primeira travesti eleita a um cargo político no Brasil, como vereadora do município de Colônia do Piauí, no semiárido piauiense, a cerca de 380 quilômetros de Teresina, capital do estado.

Kátia nasceu em 1949, foi registrada como José Nogueira Tapety Sobrinho, e sua família tem grande influência política na região. Foi registrada como “José” no Tribunal Regional Eleitoral, pelo PFL, quando se elegeu vereadora em 1992 e reelegeu-se em 1996. Em 2000, no terceiro mandato, sempre eleita em primeiro lugar na cidade, tornou-se presidente da Câmara Municipal. Filiou-se ao PPS, então partido de Ciro Gomes, seu ídolo político. Entre 2004 e 2008 exerceu o cargo de vice-prefeita em uma chapa encabeçada por Lúcia de Fátima Sá, com quem rompeu mais tarde.

 

Segundo tese apresentada por Fabiano Gontijo, professor de Antropologia no Programa de Pós-Graduação em Antropologia, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Pará (clique aqui), Kátia frequentou a escola até a terceira série do ensino fundamental, pois os pais, com vergonha de seu comportamento não convencional, a mantiveram reclusa em casa até os 16 anos de idade.

Após a morte do pai, ela fez um curso de auxiliar de enfermagem, tornou-se parteira e “arrancadora de dentes”, transformando-se uma referência em saúde na região, passando a desenvolver campanhas contra a disseminação de doenças sexualmente transmissíveis, como a Aids. Foi o reconhecimento desse trabalho que lhe garantiu a eleição a cargos públicos. Sua história foi revelada no documentário De Zé a Kátia, da cineasta Karla Holanda, de 2012, premiado como o melhor longa na 8ª Mostra de Cinema e Direitos Humanos da América do Sul. (clique aqui)

Na administração municipal, outro membro da comunidade LGBT de destaque é Edgar de Souza, do PSDB, atual prefeito de Lins, município paulista com 75 mil habitantes, que cumpre seu segundo mandato, é um caso mais antigo. Ele foi um dos primeiros prefeitos assumidamente gay do País.

Souza está na política desde 2000, quando se elegeu para o primeiro de três mandatos consecutivos de vereador. Tornou-se prefeito pela primeira vez em 2012. Durante a campanha, decidiu assumir que era homossexual. “Falei no palanque: eu não tenho que esconder com quem vivo e quem eu amo. Se esconder, não mereço ser prefeito de vocês”, declarou em entrevista ao diário O Estado de S.Paulo, em março de 2017, quando se casou em uma cerimônia ecumênica com um empresário da cidade, com o qual mantinha uma união estável por mais de dez anos.

Souza disse que assumiu publicamente sua identidade sexual após ser vítima de ataques homofóbicos e, segundo ele, naquela ocasião, muita gente decidiu votar nele – “a cidade rejeitou a homofobia”, afirmou. Já na campanha à reeleição, em 2016, diz não ter enfrentado o mesmo problema, pois a população já o conhecia e “aprovava” seu trabalho. Souza, católico, lamentou não ter podido casar na Igreja, que não aceita realizar cerimônias homossexuais.

Em entrevista ao diário Folha de S. Paulo, Souza disse que “o PSDB [seu partido atual] sempre apoiou a causa LGBT, desde André Franco Montoro. O que houve foi que muita gente se travestiu de PSDB para praticar o antipetismo, mas a nossa pauta da social-democracia vai além disso e pede o direito igualitário a todos. Sempre fui muito bem tratado dentro do partido”. Em sua primeira eleição para a Câmara linense, em 2000, Souza candidatou-se pelo PT; em 2006, filiou-se ao Psol; em 2007, elegeu-se vereador pela terceira vez pelo PSB; em 2011, rumou para o PSDB, pelo qual sagrou-se duas vezes prefeito de Lins.

Sobre o casamento, Souza afirmou: “Algumas pessoas podem achar que é pecado, mas nós não achamos. Pecado é algo muito pessoal. O casamento foi muito mais por uma afirmação do nosso direito. Muita gente lutou para que isso fosse possível e não vamos abrir mão”.

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