Gênero e Sexualidade (10) – Nas eleições de outubro, as candidaturas LGBT aumentaram perto de 400%

Fabiano Contarato (à dir.), com o companheiro e filhos / Reprodução -Instagram Fabiano Contarato (à dir.), com o companheiro e filhos / Reprodução -Instagram

Fabiano Contarato, homossexual, senador eleito com a maior votação no Espírito Santo, derrotou o bolsonarista Magno Malta

Sônia Mesquita

O Espírito Santo elegeu o primeiro senador assumidamente homossexual do País, Fabiano Contarato, do Rede, o mais votado no estado, com 31% dos votos válidos. Ele e Marcos do Val, do PPS, formam a dupla que assumirá as duas vagas do estado que estiveram em disputa. Com isso, ficou de fora Magno Malta, do PR, candidato apoiado pelo presidente eleito, Jair Bolsonaro, que concorria à reeleição. Malta, um dos parlamentares da chamada “bancada da bíblia” que mais defendeu o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, chegou a ser cogitado para vice na chapa presidencial encabeçada por Bolsonaro, mas preferiu se candidatar novamente ao cargo de senador.

Segundo artigo publicado no final de agosto último no site da revista Exame, com base em dados da Aliança Nacional LGBTI+, 160 candidatos pertencentes a essa comunidade se inscreveram para concorrer nas eleições disputadas em outubro passado, um crescimento de 386% em relação ao pleito de 2016. Desse total, mais de 20% eram filiados ao Psol, 16%, ao PT, e 13%, ao PCdoB. Já a participação no total de candidatos inscritos em 2018 – mais de 28 mil, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) – é reduzida, atingindo apenas 0,56%.

 

Embora o número de candidatos da comunidade LGBT frente ao total seja pequeno, o crescimento não deixa de ter importância, especialmente numa eleição em que a homofobia e o preconceito tiveram papel destacado. E o caso de Contarato é interessante, dados aspectos aparentemente contraditórios que carrega.

Contarato é casado e tem um filho adotado de quatro anos. Durante 26 anos, foi delegado da Polícia Civil, onde chefiou a Delegacia de Delitos de Trânsito estadual por mais de dez anos, dirigiu o Departamento de Trânsito (Detran) capixaba, e, atualmente, exerce o cargo de corregedor-geral do estado. Além disso, é professor de direito penal na Universidade Federal de Vila Velha. Sua campanha foi baseada na agenda de segurança pública – ele é favorável à liberação do porte de armas à população. Contarato defende valores cristãos, o professamento da fé religiosa de maneira não dogmática e é contra a legalização do aborto.

Artigo publicado pelo diário Folha de S.Paulo, em outubro passado, após as eleições, relata que em sua última postagem no Facebook, antes da votação, Contarato escreveu: “se for da vontade de Deus e da população do Espírito Santo, vamos começar uma nova jornada no País, combatendo a impunidade, defendendo os valores cristãos e a família”. Três meses antes, no entanto, antes de subir nas pesquisas de intenção de voto, uma imagem em seu Instagram dizia: “Como explicar pra meu filho dois homens se beijando? Colega, vc explicou q Eva nasceu de uma costela e conversou com uma cobra. Te vira!”.

A travesti Duda Salabert, filiada ao Psol, que também concorreu ao Senado, por Minas Gerais, não teve a mesma sorte de Contarato. Obteve mais de 351 mil votos, a maior votação do partido no estado, o que não foi suficiente para se eleger. Embora o resultado não a tivesse levado ao Congresso, ela comemorou: “Nesse cenário de avanço do conservadorismo, uma travesti conseguir essa votação, que é três vezes mais do que o deputado eleito Aécio Neves [PSDB], é um fenômeno”.

Segundo artigo publicado pelo diário Estado de Minas, Duda é professora há 18 anos, leciona literatura na rede privada de ensino, e atua na ONG Transvest, projeto artístico pedagógico que combate a transfobia e visa a inclusão de travestis, transexuais e transgêneros na sociedade.

Se Contarato foi o primeiro senador assumidamente homossexual eleito, o pleito de outubro passado elegeu mais um deputado para essa bancada na Câmara dos Deputados: Marcelo Calero, do PPS-RJ, ex-ministro da Cultura, que fará companhia a Jean Wyllys (Psol-RJ), reeleito para cumprir seu terceiro mandato consecutivo.

No âmbito estadual, um destaque é São Paulo, que elegeu a primeira mulher transgênero para sua Assembleia Legislativa, a ativista, educadora e artista Erica Malunguinho, natural de Pernambuco, que vive na capital paulista há 17 anos e é filiada ao Psol.


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