Gênero e Sexualidade (9) – Pessoas trans e mercado de trabalho

José tem curso superior e trabalha numa empresa que o está ajudando em seu processo de transição. Mas já sentiu na pele a discriminação que a maioria das pessoas trans experimenta, tanto em casa quanto quando sai em busca de emprego

Catharina Rocha

José dos Santos (nome fictício), tem 27 anos de idade, é homem trans, com mestrado em logística empresarial e trabalha há dois anos numa empresa, situada na cidade de São Paulo, na qual atua na área de gestão de suprimentos. Por sua própria experiência, José sabe que para uma pessoa trans obter emprego formal é difícil e que, quando consegue, pode enfrentar um ambiente de trabalho muito hostil e preconceituoso. “A discriminação vem desde o reconhecimento visual/estético”, diz.

Ele relata experiências que vivenciou quando estava no início do processo de transição. “Fui a entrevistas em que o recrutador mal conseguia me olhar. Certa vez, a pessoa nem se deu ao trabalho de me entrevistar corretamente, me olhava de forma discriminatória. Senti muito medo de não conseguir me recolocar no mercado”.

 

José se identifica como homem trans e realizou a alteração de nome social em seus documentos. Há aproximadamente um ano, passa por acompanhamento psiquiátrico e psicológico, além de fazer uso de hormônios, sob supervisão médica especializada.

José vem de uma família muito pobre e extremamente religiosa, moradora da região de Embu das Artes, município da região metropolitana de São Paulo. Desde cedo, aos cinco anos de idade, se sentia diferente e não conseguia se encaixar muito bem com outras meninas. Mas, diz, sempre acreditou que “quando crescesse, iria descobrir o porquê” de não se sentir como parte daquele mundo.

Foi ainda criança, em meio a esse sentimento de confusão, que José passou por uma experiência traumática: foi abusado sexualmente por dois garotos, na oficina em que ele e o pai trabalhavam revendendo ferro velho. José conta que o crime, que durante anos manteve em segredo, acarretou traumas profundos. “Além de não me sentir ‘pertencendo’ nem fisicamente ao mundo masculino e nem psicologicamente ao mundo feminino, após o abuso, também comecei a rejeitar meu corpo, acreditando que ele era sujo. Naquele momento, eu não conseguia contar a ninguém, nem mesmo aos meus pais”. Ele também passou a evitar o contato físico com outras pessoas. “Cresci assim, sem querer contato com as pessoas, ‘uma menina moleque’, bem largada”, conta.

Ao longo dos anos, a família de José adquiriu maior estabilidade financeira. Isso, no entanto, fez aumentar as pressões sobre ele: sua mãe passou a exigir um comportamento mais “feminino”. “Eu tinha a obrigação de ir à igreja aos finais de semana, ouvia o quão errado era sentir atração por outras mulheres e como tinha que me enxergar de outra forma”. A situação familiar só tendia a piorar, uma vez que seu pai, tinha um comportamento extremamente violento – aos 19 anos, José conta, foi espancado por ele e quase morreu.

Devido ao ambiente doméstico hostil, ele deixou a casa da família e passou a morar com sua então namorada na capital paulista. Foi um momento muito importante de sua vida, pois a companheira o ajudou a “desconstruir muitos conceitos já impregnados”. “Antes, eu era tão raso em empatia, tão cheio de padrões sociais, que nem mesmo me relacionava com mulheres ‘feias’”. Com o apoio da namorada, José passou a questionar sua identidade de gênero. “Comecei a estudar o assunto, a conversar com pessoas trans e, com 24 anos, decidi que deveria ser feliz e fazer a transição”.

Mesmo em meio a um ambiente familiar complicado, José nunca abandonou os estudos. Desde muito cedo, ouvia de sua mãe que “se quisesse ser alguém na vida, deveria estudar muito”. Com 17 anos havia iniciado seu bacharelado em administração, aos 23 ingressou na Faculdade de Tecnologia do Estado de São Paulo (Fatec), no curso de comércio exterior e, aos 25 anos já estava trabalhando na área. Atualmente, José possui MBA em logística empresarial e está em sua segunda pós-graduação, na área de psicologia organizacional, pela Faculdade Metodista.

A decisão de José, de realizar a transição de gênero, veio acompanhada de barreiras que, de início, atrapalharam sua vida profissional. Principalmente no início, a transição pode ser muito complexa e implicar procedimentos, que durante sua realização, nos casos de homens trans, produzem efeitos como o aumento de pelos faciais, alteração na voz e transfiguração dos traços. Isso cria obstáculos para o candidato ao emprego, já que o mercado de trabalho estabelece, como um dos critérios de seleção, aspectos estéticos padronizados. Ou seja, tudo que diverge da cisgeneridade (a identidade de gênero com a do sexo de nascimento) é entendido como “anormal”.

José explica que isso não só restringe muito as oportunidades profissionais, mas também impõe que pessoas trans tentem se “adequar”, por uma questão de sobrevivência. Ele mesmo, por exemplo, só assumiu sua identidade de gênero trans abertamente após atingir determinada estabilidade financeira. “Por saber dos empecilhos que eu encontraria no mercado de trabalho, só comecei o processo de transição após ter me formado e com carreira mais consolidada”, diz. José planeja realizar as cirurgias de transição no primeiro semestre de 2019 – “estou fazendo os exames pré-operatórios para retirar o útero e as mamas”.

Ao decidir pelas cirurgias e o início de tratamento por meio de hormônios, ele decidiu comunicar a empresa na qual trabalha atualmente. “Fui conversar com o RH para explicar o que ocorreria quando tomasse minha primeira dose de Testosterona. Fui muito bem atendido e o setor se colocou à minha disposição, assim como os demais colegas de trabalho. Percebi que a maioria das pessoas tinha preconceitos apenas por não entenderem muito bem [a questão]”, conta.

Na avaliação de José, se pessoas trans, de forma geral, enfrentam preconceito e discriminação, algumas delas sofrem mais. “Eu me vejo em uma situação de privilégio, por ser homem trans, branco, com altos cargos registrados e ser pós-graduado”, explica. Para ele, numa sociedade machista patriarcal, como a brasileira, “as coisas acabam sendo um pouco mais fáceis para um homem trans”. “Uma mulher querendo ‘virar’ homem a deixa numa posição na qual passa a ser do ‘sexo forte’. Já o homem realizar a transição para mulher, é sinônimo de querer ser ‘mulherzinha’”.

Há seis meses, José é embaixador de uma frente de diversidade implantada em sua empresa, que existe há dois anos, e conta com quatro grupos de afinidades: mulheres no poder, raças e etnias, o movimento LGBTI (ou LGBTQ, em inglês) e PCDs (pessoas com deficiência visual, auditiva, física ou intelectual). Segundo ele, projetos como esse são necessários porque a maioria dos transexuais sequer tem formação profissional adequada. “Quantos têm condições físicas, psicológicas e financeiras de, ao menos, terminar o ensino médio? Vivemos no país que mais mata travestis e transexuais no mundo (clique aqui) e a inserção social é muito difícil”.

Há alguns sinais de mudança, no entanto. Recentemente, a loja varejista de moda C&A abriu vagas de emprego temporárias para travestis e transexuais na função de atendente. O projeto foi iniciado tendo como parceira a Transempregos, ONG especializada na inserção de pessoas trans no mercado de trabalho, e visa atrair e contemplar profissionais trans em processos seletivos cujas vagas estão abertas nas mais de 270 lojas espalhadas pelo Brasil.

Ações desse tipo – que também foram levadas adiante por empresas como IBM e Avon –, porém, ainda não são suficientes para superar os problemas que as pessoas trans enfrentam ao se candidatarem a vagas no mercado de trabalho formal. José lembra que, após a obtenção do emprego, é necessário conscientizar os colegas de trabalho, para que entendam e respeitem a pessoa trans. “Acredito que esclarecer o assunto gera empatia e as pessoas se sentem mais tocadas e encorajadas a perguntar e a tentar nos enxergar como iguais, coisa que já somos”.


Tags: , , , , , , ,

Comente

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *