Gênero e Sexualidade (7) – Do homossexualismo à homossexualidade

Como mudou a forma de encarar o relacionamento entre pessoas do mesmo sexo desde o final do século XIX

 Sônia Mesquita

As primeiras tentativas de compreensão da homossexualidade têm início nas duas últimas décadas do século XIX. Em 1886, Richard von Krafft-Ebing, sexólogo austríaco radicado na Alemanha, listou a homossexualidade e outros tipos de práticas sexuais no livro Psychopathia sexualis. Segundo Krafft-Ebing, a homossexualidade seria causada por uma “inversão congênita”, que ocorria durante o nascimento ou era adquirida pelo indivíduo. Com isso, a homossexualidade passou a ser considerada um problema mental.

Décadas mais tarde, em 1952, em sua primeira versão, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM, na sigla em inglês), publicado pela Associação Psiquiátrica Americana, classificou a homossexualidade como uma desordem mental, embora nunca estudos científicos de associações de psiquiatria e psicologia tenham comprovado essa avaliação.

 

No início da última década do século passado, a Organização Mundial de Saúde (OMS) excluiu a homossexualidade da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas relacionados com a Saúde (CID 10). Em 1994, a CID substituiu o termo “homossexualismo”, ainda hoje utilizado, por “homossexualidade”, pois o sufixo “ismo” indica doença, enquanto “dade” relaciona-se ao modo de ser (comportamento). Uma alteração que parece corresponder à mudança na forma como determinadas sociedades passaram a encarar a relação homossexual, entendendo-a como decisão individual.

Artigo publicado, em outubro de 2014, pelo semanário britânico The Economist sobre o aumento do apoio da opinião pública nos EUA ao casamento entre homossexuais, diz que “provavelmente” se trata de “uma mudança no julgamento moral” feito pela sociedade. O argumento central apresentado pela publicação é a pesquisa realizada pelo Instituto Gallup, em 2013, a qual aponta que 60% dos americanos disseram que não tinham problemas morais com as relações homossexuais e que se opunham às leis e costumes “que historicamente discriminam os homossexuais”.

Outro dado que reforça essa percepção é o levantamento produzido pelo mesmo instituto em duas épocas diferentes, no qual os entrevistados foram inquiridos se tinham amigos, parentes ou colegas gays. Em 1985, menos de um em cada quatro americanos disseram que sim; 29 anos mais tarde, a proporção dos que responderam afirmativamente passou a três para cada quatro entrevistados.

Para The Economist, esses resultados mostram que, entre 1985 e 2014, estabeleceu-se um “divisor de águas não apenas na política contemporânea, mas também na história cultural”.

Entre os motivos da tal mudança está o surgimento de uma geração que cresceu aceitando a homossexualidade como uma variação humana normal, como a heterossexualidade. Em boa parte porque as minorias sexuais emergiram das sombras e passaram a se expor socialmente, como os ativistas americanos pelos direitos civis o fizeram, a partir  dos anos 1950, e as feministas, um pouco mais tarde.


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