Gênero e Sexualidade (6) – Homossexualidade: da aceitação na Grécia antiga e em sociedades tribais na América e na África, à criminalização

A pederastia foi uma espécie de instituição entre os gregos, enquanto após o advento do cristianismo no Império Romano, homossexuais passaram a ser condenados à morte

Sônia Mesquita

Ao longo da História, a homossexualidade, em diferentes épocas e culturas, foi aprovada, tolerada, punida e banida, segundo registra a Enciclopédia Britânica. O termo é uma junção da palavra grega homo, que significa semelhante ou igual, com a palavra latina sexus, expressando a atração física, espiritual ou emocional de um indivíduo por outro do mesmo sexo ou gênero.

Na Europa ocidental, a homossexualidade não era incomum na Grécia e na Roma antigas. Na civilização grega clássica, as relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo eram aceitas sem nenhuma punição. Nesse período, as mulheres eram inferiorizadas, cumprindo apenas um papel na prestação de serviços domésticos, e o sexo entre casais heterossexuais tinha a finalidade básica de reprodução familiar.

 

Já a pederastia – o relacionamento entre um homem adulto e um adolescente – era relativamente comum e aceita entre as pessoas cultas e intelectualizadas da época. Por meio dela, um adulto (Erastes) escolhia um adolescente (Erômenos) para educá-lo e iniciá-lo na vida social e, em troca, o educando oferecia seu corpo (clique aqui).

Na sociedade ateniense, acreditava-se que o jovem, ao relacionar-se – durante um intervalo que ia dos 12 aos 25 anos de idade –, amistosa e afetivamente com o adulto, absorveria suas virtudes e educação filosófica. E assim, ao ele próprio tornar-se adulto, era esperado que assumisse o papel de educador de outro jovem. A relação entre eles, no entanto, dependia da aceitação do adolescente e de sua família.

Quando o Império Romano incorporou a cultura grega, a pederastia foi modificada, pois a relação homossexual entre um cidadão romano adulto e um adolescente liberto não era aceita e passou a sofrer punição. Mas era permitida a relação de um romano com um escravo.

Quanto às relações homossexuais entre mulheres, os registros históricos são raros até o século XVIII, quando as palavras lesbianismo e lésbica foram forjadas a partir de fragmentos de poemas escritos pela poetisa grega Safo (610-580 a.C), nascida na ilha de Lesbos, no mar Egeu, os quais sobreviveram à ordem para que fossem queimados pelo bispo de Constantinopla.

Antes da colonização europeia nas Américas, segundo registro na Wikipedia (clique aqui), entre os indígenas havia uma forma de homossexualidade centrada em torno da figura dos “dois espíritos”. Segundo o texto, pessoas portadoras dos “dois espíritos” eram reconhecidas precocemente e os pais lhes apresentavam as escolhas a seguir e, se a criança aceitasse o papel, era criada de forma adequada para aprender os costumes do gênero que escolhido. Os “dois espíritos” eram geralmente xamãs (pessoa portadora de função religiosa), mas com mais poderes que os xamãs comuns, e seu relacionamento sexual se dava com membros comuns do mesmo sexo na tribo. Ainda segundo o artigo, os conquistadores europeus tentaram acabar com a prática dos “dois espíritos” impondo punições severas, como a execução pública, na qual a pessoa era queimada e tinha o corpo dilacerado por cães.

Na África, os antropólogos Stephen Murray e Will Roscoe descreveram no livro Boy wives and female husbands: studies of african homosexualities, publicado em 1998, que mulheres do Lesoto envolviam-se entre si em relações de “longo prazo e eróticas”, chamadas motsoalle. E o antropólogo americano E. E. Evans-Pritchard também relatou no livro Sexual inversion among the Azande, de 1970, que anciãos relataram que guerreiros Zandes, no norte do Congo, rotineiramente, antes do início do século XX, assumiam jovens amantes do sexo masculino entre as idades de 12 e 20 anos, que ajudavam nas tarefas domésticas e praticavam sexo intercrural (tipo de sexo sem penetração, no qual um dos participantes coloca seu pênis entre as pernas do outro) com seus amantes mais velhos.

No ano 380 da era cristã, o imperador Teodósio, de Roma, decretou o cristianismo como a religião oficial do Império, por meio do chamado Édito de Tessalônica. A partir daí, para os romanos, o sexo passou a ter o objetivo exclusivo de gerar filhos. Dez anos mais tarde, registra-se a primeira aplicação de castigo corporal a homossexuais (clique aqui). Após a queda do Império Romano do Ocidente, em 533, o imperador bizantino cristão Justiniano editou a primeira lei proibindo a homossexualidade, equiparando-a ao adultério, para a qual era prevista a pena de morte. Com o advento do islamismo, a partir do século VII, a concepção religiosa do sexo voltado essencialmente à procriação foi reforçada.

Embora a ideologia cristã condenasse os prazeres sexuais, até o século XIV há registros de personagens históricos que mantiveram relações homossexuais, principalmente entre a nobreza. Entre os casos notórios há os do rei britânico Ricardo Coração de Leão (1157-1199), que teve, entre seus parceiros, Felipe II, rei da França.

Quando a peste negra atingiu a Europa, no século XIV, e ninguém sabia suas causas, o “pecado” em que homens viviam passou a ser apontado como uma delas. Em 1432, Florença proibiu a sodomia. Por 70 anos houve perseguições e condenações a homossexuais, durante os quais, em uma população de 40 mil habitantes, 17 mil homens foram incriminados e três mil foram condenados por sodomia.

Vários países europeus estabeleceram leis contra a prática sexual entre parceiros do mesmo sexo. Na Inglaterra, entre 1800 e 1834, 80 homens foram mortos por sodomia (a pena de morte por sodomia foi abolida em 1861, sendo substituída pelo cumprimento de condenação a dez anos de trabalhos forçados).

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