Gênero e Sexualidade (4) – Muito além de menino e menina, hétero e homo

A multiplicidade de gênero e orientação sexual ganha nova dimensão no século XXI

Catharina Rocha

No ano passado, “A força do querer”, novela transmitida nacionalmente no horário nobre pela Rede Globo de TV, mostrou algo novo: uma personagem em conflito com sua identidade de gênero. Milhões de espectadores acompanharam a história de Ivana – uma jovem mulher de gênero feminino, que se descobre como homem trans e muda sua identidade para se tornar Ivan. Foi a primeira vez que, em um folhetim de grande audiência, o tema foi abordado, colocando uma grande parte dos brasileiros diante das novas questões trazidas pelas histórias de vida de pessoas trans.

Ivana, interpretada pela atriz Carol Duarte, nasceu com órgão sexual de mulher (vagina), porém não se identificava com a concepção social do gênero feminino. Na trama, a personagem, heterossexual, tinha interesse amoroso por um rapaz e questionava o motivo pelo qual se sentia mais confortável ao usar roupas e empregar trejeitos masculinos, já que não se considerava homossexual.

Ao longo da história, Ivana se descobre transexual e inicia, por conta própria, uma terapia hormonal. Mais tarde, muda seu nome para Ivan e as primeiras características da readequação de gênero ficam visíveis. Assim como se manifestam, por parte de sua família, a discriminação e a rejeição.

Ao tornar-se Ivan, que se identifica com o gênero masculino, e manter relações românticas com homens de gênero masculino, a personagem alterou sua orientação sexual, de heterossexual para homossexual. Isso porque a determinação de gênero não influencia, necessariamente, a orientação sexual de um indivíduo e os dois conceitos devem ser encarados, socialmente, de formas distintas (leia “Dois lados do Brasil”).

Na vida real, o caso de Thamy Miranda, ator e apresentador, filho da ex-cantora Gretchen, apresentou-se de maneira diferente: como Ivana, Thamy nasceu com o órgão genital de mulher, mas com orientação sexual homossexual (lésbica), pois sempre se relacionara com mulheres de gênero feminino. Ao perceber-se homem trans, sua orientação sexual foi de homossexual para heterossexual, já que Thamy expressa desejo por mulheres, com gênero oposto ao seu atual.

Em 2015, durante o processo de sua transição de gênero, Thamy apresentou na rede social Instagram sua opinião sobre o tema: segundo ele, o assunto, para ser compreendido, requer aprofundamento, pois “ser transexual não é a mesma coisa que ser gay. Ser transgênero é uma forma de identidade de gênero – a maneira como uma pessoa se vê e ao gênero com o qual se identifica. Ser gay ou lésbica está relacionado à orientação sexual – como cada um orienta seu afeto e seu desejo, se para meninas, meninos ou para os dois”. Em resumo, a heterossexualidade nada mais é do que a atração de um indivíduo pelo gênero oposto e a homossexualidade está relacionada à atração pelo mesmo gênero.

Atualmente, as categorias de sexualidade são diversas e requerem um glossário de termos para especificá-las. Além da heterossexualidade e da homossexualidade, há ainda a bissexualidade (atração por ambos os gêneros – masculino e feminino), a pansexualidade (atração por dois ou mais gêneros, que não necessariamente incluem os gêneros feminino e masculino), a assexualidade (caracterizada pela inexistência de desejo sexual) e diversas outras nomenclaturas, que buscam expressar as possíveis formas de sexualidade, independentemente da escolha de gênero.

Thamy e Ivan, por exemplo, são ambos transexuais homens, mas enquanto o primeiro é heterossexual, a personagem da novela é homossexual. Já a modelo internacional Leah T, filha de Toninho Cerezo, ex-jogador da seleção brasileira de futebol, nasceu com órgão sexual de homem, do gênero masculino, e tinha interesse por homens (ou seja, era gay). Ao realizar sua transição de gênero para mulher, ela se tornou transexual mulher e heterossexual.

É preciso entender que, quando se trata de gênero, há inúmeras formas de identificação que vão além das classificações masculino, feminino e trans. As combinações entre a orientação sexual de um indivíduo com sua identificação de gênero são representadas pelo movimento LGBTI, que abrange diferentes “categorias” e busca unir as amplas expressões de sexualidades e gêneros com o intuito de somar forças.

Ivan, Leah e Thamy são transexuais – realizaram modificações no corpo, por meio da terapia hormonal e/ou da cirurgia de redesignação sexual, para adequarem suas anatomias às suas identidades sexuais. Quando, no entanto, alguém quer se expressar como o sexo oposto (usando roupas e mudando pronomes e nome social, por exemplo), mas não tem necessidade de modificar sua anatomia, essa pessoa é considerada transgênero. É o caso de Liniker, cantora nascida com o sexo de homem, que se identifica e atua com o gênero feminino, mas que não fez processo de redesignação sexual.

Já a cantora Pabllo Vittar é uma pessoa do gênero masculino, nascida com o sexo de homem, que se identifica como tal, tem orientação sexual pelo mesmo gênero (ou seja, é homossexual) e realiza performances travestido como uma Drag Queen. Trata-se de um homem homossexual que, apenas quando Drag Queen, usa roupas e pronomes relativos ao gênero feminino. A diferença entre Pabllo e um travesti, por exemplo, é o fato de que Pabllo se transforma apenas em shows e o travesti adota a vestimenta “designada” ao gênero feminino em seu dia a dia.

É compreensível que essa abundância de termos e nomenclaturas gere confusão, principalmente para aqueles com pouca afinidade e/ou conhecimento sobre o tema. A realidade é que essas designações são dinâmicas, algumas são mais comuns ou usadas preferencialmente em algumas comunidades ou lugares, e não são capazes de classificar todas as identidades que as pessoas podem ter.

Em junho de 2016, a Comissão de Direitos Humanos de Nova York (EUA) reconheceu 31 diferentes tipos de gênero (clique aqui). Uma lista pouco menor que a metade da apresentada, em 2014, pela rede social Facebook, que incluiu 56 opções de gêneros para usuários que não se identificam simplesmente com as categorias “masculino” ou “feminino”.

Uma classificação tão complexa explica-se, pois existem palavras para descrever multiplicidade de gêneros, ausência de gênero, parcialidade de gênero, entre outras possibilidades, e também há quem não se identifique com nenhum desses termos e prefira utilizar outros.

A comunidade LGBTI defende, porém, que é necessário que o conjunto da sociedade busque debater e compreender toda a questão da identidade de gênero, pois a visibilidade do tema visa incluir sujeitos tradicionalmente excluídos, que são frequentemente vítimas de opressões.

O próprio Ministério dos Direitos Humanos (MDH) brasileiro, iniciou, em maio deste ano a primeira campanha institucional de combate ao preconceito e respeito as diferenças (clique aqui). O objetivo é “promover o esclarecimento geral da população em relação à naturalidade das múltiplas orientações sexuais (heterossexualidade, homossexualidade, bissexualidade e assexualidade) e identidades de gênero (cisgênero, transgênero, transexual, mulheres e homens trans e travestis) e com isso reduzir as diversas formas de preconceito que culminam em atos brutais de violência contra a população LGBT”.

Para o órgão, falar sobre gênero e sexualidade, como ocorreu na novela da Rede Globo, é buscar justamente a reversão de estereótipos, por meio do conhecimento e do rompimento de preconceitos e predefinições feitas por estruturas sociais limitantes.


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