MUNDO/POLÍTICA – Acomodação e coerção nuclear – Os dois lados da estratégia de sobrevivência do regime na Coreia do Norte

Moon Jae In e Kim Jong Un desfilam em Pyongyang, em 18 de setembro de 2018 - Pyongyang Press Corps/Pool Moon Jae In e Kim Jong Un desfilam em Pyongyang, em 18 de setembro de 2018 - Pyongyang Press Corps/Pool

18/09/2018

O encontro que se realiza desde segunda-feira (17/09) entre os líderes das Coreias do Sul e do Norte é o terceiro este ano e o mais carregado de simbolismo desde que os países reiniciaram movimentos de aproximação, há cerca de um ano. A começar pelo fato de acontecer pela primeira vez em Pyongyang, a capital da República Popular Democrática da Coreia (Coreia do Norte, DPRK, na sigla em inglês), com agenda longa, prevista para três dias.

Kim Jong Un, líder da DPRK, e Moon Jae In, presidente da República da Coreia (Coreia do Sul, RoK) encontram-se novamente apenas três dias após terem inaugurado escritório comum na cidade fronteiriça de Kaesong, destinado a manter canal de comunicação permanente e sediar negociações em torno da desnuclearização da península coreana e a reaproximação dos dois países

No aeroporto, os dirigentes e suas esposas, Kim Jung-sook (Sul) e Ri Sol-ju (Norte), trocaram cumprimentos efusivos ao darem início a um cerimonial de grande pompa, com guarda de honra passada em revista por Moon Jae In, saudado por multidão de homens em trajes escuros e mulheres usando hanbok – vestimenta tradicional coreana -, agitando bandeiras da DPRK e a representativa da unificação das Coreias, a mesma mostrada nas cerimônias da mais recente Olimpíada de Inverno, em Seul, com mapa da península em azul sobre fundo branco. Seguiu-se desfile em carro aberto pelas ruas da capital.

O fato se encaixa na série de gestos diplomáticos recentes de reaproximação das Coreias que teve como um dos pontos altos a assinatura de protocolo de intenções visando a desnuclearização da Península Coreana, firmado por Kim Jong Un e o presidente dos EUA, Donald Trump, em 12 de junho passado, em Cingapura. No cenário de fundo, está a busca de maior cooperação econômica entre as Coreias e um fim formal para a guerra que, entre 1950 e 1953, dividiu a península e foi interrompida por armistício, sem tratado de paz.

A pompa do encontro em curso não é apenas uma demonstração de boas maneiras diplomáticas, mas também um indicador da estratégia de sobrevivência do regime na Coreia do Norte, que há décadas oscila entre a acomodação e a coerção nuclear. Esse movimento pendular é explicado pelo portal The National Interest, mantido por acadêmicos americanos preocupados com a política externa dos EUA e o relativo enfraquecimento de sua influência diante do avanço da China e da recuperação da Rússia.

E sua edição de 24 de julho último, o portal publicou artigo em que o pesquisador Khang Vu, do Dartmouth College, em Hanover, New Hampshire, analisa as flutuações do discurso da DPRK, passando de um tom de cooperação para o de antagonismo, após o encontro entre Kim Jong Un e Trump em Cingapura, com vistas a fazer refluir o programa de construção de arsenal nuclear por Pyongyang. Para o pesquisador, o humor variável da DPRK é parte de uma estratégia para tentar dividir a aliança entre Washington e Seul.

Khang Vu diz que os mais recentes movimentos hostis da DPRK após viagem de Mike Pompeo, o secretário de Estado americano, a Pyongyang para discutir detalhes do acordo conjunto assinado em Cingapura, refletem um padrão dentro de uma política que ele chama de “desacoplamento de Seul em relação a Washington”, que parte do entendimento de que o presidente sul-coreano Moon Jae In está, de fato, determinado a preservar o impulso de paz declarando que o Norte tenta construir uma relação de confiança de longo prazo com os EUA.

Para o acadêmico, a DPRK sempre tenta minar a aliança EUA-RoK por meio de movimentos de coerção e acomodação, conforme percebe as diferenças no modo como liberais e conservadores sul-coreanos conduzem suas políticas em relação ao Norte. A esquerda, que tem compromisso com a DPRK devido à etnia compartilhada, geralmente recebe tratamento amigável; a direita, por razões ideológicas, tende a colidir com Pyongyang. Assim, a DPRK ajusta seu discurso de acordo com as mudanças na política sul-coreana para realçar as diferenças em como Washington e Seul percebem o que seria “a ameaça norte-coreana”.

Assim por exemplo, durante os anos dos presidentes Kim Dae-jung e Roh Moo-hyun (1998-2007), a DPRK enfatizava o interesse compartilhado das duas Coreias no desenvolvimento econômico conjunto e na preservação da segurança regional, já que os liberais sul-coreanos esperavam transformar o Norte através do engajamento. Com isso, a DPRK superou o colapso do Acordo de 1994 com os EUA e, ao mesmo tempo, jogou Seul contra Washington. A retórica do “eixo do mal” adotada pelo presidente americano George W. Bush a partir de 2002 colidiu seriamente com a política amistosa de Kim e Roh em relação ao Norte, o que resultou em um impasse sobre a desnuclearização e no aumento das tensões.

Já sob as administrações conservadoras de Lee Myung-bak e Park Geun-hye (2007-2017) na Rok, a DPRK mudou de uma política de acomodação para uma da coerção. Atacou e afundou uma corveta sul-coreana e passou a realizar uma série de testes nucleares e de mísseis, com o objetivo de complicar as relações entre EUA e Coreia do Sul, trazendo de volta o dilema convencional: Washington está disposta a trocar um ataque nuclear contra Los Angeles por um contra Seul em caso de um confronto com armas desse tipo? A capacidade de a DPRK atacar bases militares no Japão e na ilha de Guam obrigou os EUA e a Coreia do Sul manterem a coesão de sua aliança com base numa “paciência estratégica” que deu ao Norte a possibilidade de aperfeiçoar tecnologias nucleares.

Outra inflexão se fez a partir da administração liberal de Moon Jae In, que assumiu o governo em maio de 2017. A DPRK passou a mostrar interesse renovado em intercâmbios e projetos econômicos conjuntos com a Coreia do Sul, jogando os gestos amigáveis de Moon contra o “fogo e fúria” de Trump para amarrar os EUA no processo diplomático, do qual não pode sair sem um impasse na agenda da desnuclearização no longo prazo.

A Coreia do Sul e os EUA, diz o pesquisador, devem reconhecer esse padrão na política da DPRK e entender que o Norte nunca abandonará totalmente a dupla capacidade de chantagear o Sul e atacar o território continental dos EUA. O vai e vem entre acomodação e coerção é calibrado por Pyongyang conforme as mudanças no governo do Sul.

Mesmo que a perspectiva de desnuclearização não seja promissora, essa avaliação dispensa um ataque preventivo dos EUA contra a DPRK. A manutenção de um arsenal nuclear remanescente no Norte visa a estabilidade do regime, não um desejo de reunificar a Península Coreana em seus termos, na marra. Por isso, Washington deve aceitar um relacionamento de mútua dissuasão com Pyongyang e se engajar em negociações para limitar o arsenal nuclear do Norte por um custo aceitável.


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