MUNDO/POLÍTICA – Construção de confiança mútua entre EUA e Coreia do Norte requer tempo e participação de cientistas, diz pesquisador do MIT

Kim Jong Un e Donald Trump desembarcam em Cingapura - Fotos KCNA e Casa Branca Kim Jong Un e Donald Trump desembarcam em Cingapura - Fotos KCNA e Casa Branca

24/07/2018

Há razões para otimismo após o encontro entre o presidente dos EUA, Donald Trump, e o líder da Coreia do Norte, Kim Jong Un, em 12 de junho último, em Cingapura, mas essa aproximação só poderá ter resultados concretos a longo prazo e vai requerer participação de cientistas na construção da confiança mútua, diz o pesquisador R. Scott Kemp, diretor do Laboratório de Segurança e Política Nuclear do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), em Cambridge, EUA, e ex-consultor científico do Departamento de Estado para o controle e não-proliferação de armas nucleares, em artigo na edição on-line de 7 de junho da revista Nature.

As razões para otimismo estão principalmente nas mudanças econômicas em curso na República Democrática do Povo da Coreia (Coreia do Norte, DPRK, na sigla em inglês).

Kemp relata suas observações sobre os casos dos programas armamentistas da antiga União Soviética (URSS), da África do Sul e do Irã e o desfecho das negociações em torno deles, com a conclusão de que, em relação ao diálogo em fase inicial entre os EUA e a DPRK, muito além de um esforço de ambas as partes em busca de confiança mútua, o êxito dependerá principalmente do envolvimento de cientistas capazes de desenvolver métodos de aferição do porte, do grau de desenvolvimento dos dispositivos e instalações para a produção de combustível nuclear, o que, segundo ele, levará muito tempo para se fazer mesmo havendo clima de colaboração. Portanto, nada será definitivamente resolvido no primeiro encontro entre Trump e Kim, nem mesmo pouco após ele. Kemp diz que:

A DPRK está prestes a produzir um arsenal nuclear significativo. Um acordo poderá resultar em ganhos econômicos importantes para ambos os lados, pois a DPRK detém cerca de 10 trilhões de dólares em reservas minerais inexploradas, incluindo o que pode ser o maior depósito único de metais de terras-raras do mundo (matérias-primas essenciais para eletrônica, informática e construção de baterias elétricas).

Mudanças estruturais que se desdobram na DPRK nos últimos seis anos sugerem que agora é a hora de começar um processo controlado de abertura econômica. Mas mesmo com a situação favorável para um entendimento, é preciso lembrar que o acordo com o Irã demandou 13 anos de idas e vindas nas negociações, assim como durante a Guerra Fria entre EUA e União Soviética (URSS) o controle dos arsenais nucleares foi alcançado através de uma evolução ponto a ponto, não através de um único acordo grandioso.

A antiga URSS poderia ser um modelo mais adequado para se aplicar ao caso da DPRK do que a Líbia ou o Irã. Uma diferença crucial, porém, é que o desarmamento nuclear total e o desmonte das instalações de apoio nunca esteve na mesa com a URSS como estão agora com a DPRK, de modo que, naquele caso, muitos dos desafios de verificação nunca foram resolvidos.

A África do Sul é o único caso na história que chega perto de uma desnuclearização total: o país abandonou suas armas nucleares voluntariamente em 1991, antes que o Partido Nacional da era do apartheid cedesse poder ao Congresso Nacional Africano para não deixar esse arsenal aos seus sucessores, dando aos inspetores internacionais amplo acesso às instalações. Mesmo assim, muitos problemas técnicos para a verificação não foram resolvidos e o mundo aceitou a África do Sul como livre de armas nucleares por motivos políticos, sem a certeza de que, de fato, o desmonte nuclear fora efetivo.

Essa motivação política não existe hoje para o caso da DPRK, de modo que a participação de cientistas nas negociações será imprescindível para a construção da confiança, como foi no caso do acordo com o Irã.

O otimismo também se baseia no fato de a DPRK passar por uma mudança real. Kim Jong Un consolidou seu poder acelerando o desenvolvimento de armas nucleares e mísseis de longo alcance para cimentar sua autoridade sobre o meio militar cético, mas começou a plantar sementes para uma transição.

Em março de 2013, o Partido dos Trabalhadores da Coreia (PTC) adotou um programa chamado byungjin, de desenvolvimento paralelo da economia e armas nucleares. Ao contrário de seus antecessores, Kim Jong Un elevou o status dos seus assessores econômicos, hoje sempre à frente de sua comitiva, onde antes oficiais militares costumavam se perfilar, e colocou o PTC numa posição superior na relação com os quadros das forças armadas.

O 7º Congresso do PTC, em 2016, adotou uma política que consagra a pesquisa científica e a inovação tecnológica, não a disciplina militar, como força motriz do progresso nacional. Em abril deste ano, Kim anunciou que sua política transitória de byungjin havia sido cumprida; a nova linha partidária agora dedica todos os recursos disponíveis ao desenvolvimento econômico. Há evidências de uma nova economia de serviços urbanos.

O número de lojas oficiais na DPRK, onde se pode comprar produtos básicos, quase dobrou desde 2010; os mercados estão mais organizados; várias empresas de táxi privadas agora competem por negócios em Pyongyang e o turismo está em desenvolvimento.


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