A ECONOMIA DOS EUA E A CRISE – De uma “Era de Ouro” para uma “Era de Chumbo”?

Raimundo Rodrigues Pereira —

1.
O gráfico acima compara os efeitos da Grande Recessão, iniciada no final de 2007 em Wall Street, o centro nervoso do sistema capitalista, com os da Grande Depressão, deflagrada com a quebra da Bolsa de Valores de Nova York, no dia 24 de outubro de 1929.
As curvas dão, ao longo de 13 anos contados a partir das duas tragédias, o valor do PIB americano per capita para trabalhadores adultos entre 16 e 64 anos, tendo, ambas, um índice 100 como ponto de partida. A curva em azul-escuro refere-se aos efeitos da Grande Depressão; a em azul-claro, à crise recente. O artigo que as acompanha é da revista inglesa The Economist, de 16 de dezembro do ano passado, quando se completaram dez anos da crise recente e os dados para essa crise a partir de 2018 são estimativas. Seu título é “The lost decade”, a década perdida; e, na frase destacada no início do texto se diz “Governments prevented a second Depression, but left the world vulnerable”, ou seja, os governos evitaram uma segunda Depressão, mas deixaram o mundo vulnerável.

O que dizem as duas curvas do gráfico? Primeiro: os efeitos da Grande Depressão foram muito maiores: o PIB americano por trabalhador só vai voltar aos níveis de 1929 mais de 11 anos depois, após o início da II Guerra Mundial; e na Grande Recessão isso ocorre cerca de sete anos depois e sem a ajuda dos horrores da guerra. Segundo: a despeito de o buraco cavado na economia americana ter sido muito menor na crise recente, a recuperação foi muito menos acelerada. E, como se verá na parte 3 deste artigo, o diabo, no modesto crescimento da renda per capita dos trabalhadores americanos a partir de 2007, está nos detalhes.

2.
A Grande Depressão foi também um marco na história das teorias sobre as crises do desenvolvimento capitalista. O grande economista liberal Joseph Schumpeter (1883-1950), ministro das Finanças da Áustria em 1919 e professor nos EUA entre 1927-1930, muito conhecido por seu elogio ao que qualificava de a “destruição criativa” promovida pelas crises do capitalismo, considerou, de início, que a economia americana se recuperaria por si mesma e chegou a atacar as medidas de intervenção estatal do presidente Franklin Delano Roosevelt adotadas no New Deal (1933-1936). Outros, na mesma época, pensavam de modo diferente. Em 1936 surge a obra máxima do inglês John Maynard Keynes (1883-1946), A teoria geral do emprego, do juro e do dinheiro. “É uma característica marcante do sistema econômico sob o qual vivemos”, disse Keynes nesse trabalho, “ser possível ficar em uma condição crônica de atividade abaixo do normal por um longo período de tempo sem qualquer tendência clara para a recuperação ou para o colapso”.

A guerra, com os gigantescos gastos militares feitos pelos estados nacionais em conflito, encerrou provisoriamente esse debate. E os EUA emergiram ao final como os grandes vencedores. Patrocinaram a reconstrução das economias europeias após o acerto de Bretton Woods em 1945 – com a criação do Fundo Monetário Internacional (FMI), do Banco Mundial e o Acordo Geral de Tarifas e Comércio (precursor da atual Organização Mundial do Comércio), instituições que colocaram o país e sua moeda, o dólar, no centro das finanças mundiais. E continuaram estimulando sua economia com gastos militares espetaculares para impor a “ordem liberal” na Ásia com as guerras da Coreia e do Vietnã, até os primeiros anos da década de 1970.

Década após década no final do século 20, no entanto, a líder do mundo capitalista, a economia americana, cresceu cada vez menos: menos nos anos 1970 do que nos 1960; menos nos 1980 do que nos 1970 e assim sucessivamente. Até que, na primeira década já concluída do século XXI, de 2001 a 2010, teve a sua pior performance desde os anos da Grande Depressão. O que está acontecendo? Do que se chamou de “era de ouro” do sistema capitalista com seu desenvolvimento nos anos 1950 e 1960 e começo dos anos 1970, ele passou para uma “era de chumbo” como dizia a economista pós-keynesiana inglesa Joan Robinson (1903-1983)?

3.

É isso o que parece acontecer. Um trabalho divulgado no final do mês passado pelo Instituto Nacional de Pesquisa Econômica dos EUA (NBER na sigla em inglês) mostra que o atual ciclo de crescimento da economia americana, além de lento e de não acompanhar o aparente avanço das inovações da tecnologia, é precário no que se refere a melhorias na situação dos trabalhadores. Seu autor é Robert Gordon, da Northwestern University, do estado de Illinois, cujo currículo mostra várias dezenas de trabalhos sobre o ritmo e a natureza do crescimento da economia dos EUA ao longo da história do país. Seu título diz “Why has economic growth slowed when innovation appears to be accelerating?”, ou seja, “Por que o crescimento econômico desacelerou quando a inovação parece estar acelerando?”

Para evitar a influência dos altos e baixos do ciclo econômico, na série de anos Gordon mede o crescimento da economia entre trimestres com o mesmo nível de desemprego. Os resultados mostram que a economia americana desacelerou de um crescimento de 3,7% ao ano, no período 1970-2006, para apenas 1,4% de crescimento anual no pós-crise de 2006-2016. Gordon destaca que apenas metade dessa desaceleração se deve a uma redução da produtividade. O crescimento importa, diz ele – e não apenas a elevação da produtividade: sem crescimento econômico minguam os recursos para encaminhar a solução dos problemas do país – na educação, na infraestrutura que envelhece, nos fundos para a seguridade social e na assistência médica aos mais pobres cada vez mais necessária.

O trabalho documenta a contribuição para a queda da taxa de crescimento da economia dada pelos diversos fatores demográficos: a fertilidade, a mortalidade, a expectativa de vida e a imigração. E mostra que todos eles evoluem nos EUA de forma pior do que nos outros países ricos. Um exemplo: somando a imigração legal e ilegal, por exemplo, se tinha 0,37% da população americana entre os anos 1990-2000 e apenas 0,20% da 2010 a 2016.

Gordon examina também as razões para as taxas decrescentes de crescimento da produtividade no país, que foram de 2,8% ao ano no período 1920-1970 para 1,0% ao ano entre 2006-2016. A principal causa, diz ele, é o crescimento do custo para se obter uma educação universitária. Gordon diz que esse custo educacional mais alto explica também porque, embora o número de patentes emitidas no período recente seja superior aos de décadas passadas, o crescimento da produtividade nesses anos pós-crise tem sido mais baixo.

O trabalho de Gordon parece muito oportuno para se ler no Brasil de hoje, onde a precarização do trabalho parece ser um dos instrumentos-chave do governo para sustentar a modestíssima recuperação econômica em curso.


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Uma resposta para “A ECONOMIA DOS EUA E A CRISE – De uma “Era de Ouro” para uma “Era de Chumbo”?”

  1. Christiano Bucci disse:

    Os EUA estão sendo vítimas de suas próprias medidas econômicas, estão numa espiral negativa e nós brasileiros, que sempre importamos modelos e polícias americanas, estamos seguindo-os nessa espiral.

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