1 – Por que um semanário em defesa da independência nacional, da democracia e da elevação do padrão de vida material e cultural dos trabalhadores

1 - Porque um semanário

O Brasil já teve um movimento jornalístico em defesa da independência nacional, da democracia e da melhoria das condições de vida material e cultural dos trabalhadores. Ele deu origem ao semanário Movimento, lançado em meados de 1975. A atual conjuntura tem algumas das características semelhantes às de quatro décadas atrás. Era, como é hoje, um momento de desafio.

Na época, o império americano mudara de política: do apoio aos golpes militares e às ditaduras na América Latina, passara à política de “defesa dos direitos humanos”. Internamente, com habilidade, o comando político do regime militar preparou um recuo tático para atrair setores mais conservadores do campo democrático e organizar, sob sua direção, uma saída para a ditadura, o que acabou ocorrendo dez anos depois, no colégio eleitoral que elegeu Tancredo Neves e José Sarney como presidente e vice-presidente civis do País.

Movimento surgiu na contracorrente dessa articulação. Graças aos esforços e contribuições de personalidades e movimentos mais combativos do campo nacional, democrático e popular, foram obtidos recursos para fazer um semanário que teve grande repercussão na cena cultural e política do País.

O desafio de hoje, no campo político, é achar uma resposta ao grande e até agora bem-sucedido movimento das forças conservadoras interessadas em consolidar no País as reformas liberais promovidas pelos governos de Fernando Collor de Mello e Fernando Henrique Cardoso, aproveitando-se da grande crise econômica, social e política desencadeada no início do quarto governo do Partido dos Trabalhadores e que levou ao impeachment da presidente da República, Dilma Rousseff.

Como a Editora Manifesto pode contribuir, no campo jornalístico, para realizar esse projeto?

Sua publicação principal, a revista mensal Retrato do Brasil (RB), foi a única a apontar com precisão para o lugar de onde vinha o fogo central do ataque ao governo petista. Na capa de sua edição 78, preparada no final de 2013, dissemos, citando as críticas à política econômica do governo feitas por executivos no Brasil dos grandes bancos internacionais, como o Goldman Sachs e o Nomura Securities, que “após uma folga aparente, os grilhões da velha dependência financeira do País” tinham voltado “a incomodar”. E, meio ano depois, no número 84, de julho de 2014, dissemos que o governo petista seguia “um caminho perigoso”, que poderia “conduzir a uma crise do mesmo tipo das duas que levaram o País a quebrar”, sob os governos militares, entre 1981-1983, e sob o governo de Fernando Henrique Cardoso, em 1998-2000.

Os dois mandatos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010) tinham, no geral, se beneficiado de um processo internacional extraordinário, de alta dos preços das commodities e de crescimento da economia chinesa. A partir de 2008, no entanto, o cenário internacional mudou com a grande crise do sistema financeiro internacional e a desaceleração do crescimento chinês. A economia brasileira desacelerou completamente em 2014, o último ano do primeiro mandato da presidente Dilma.

Sua tentativa de reanimar a economia com manobras tradicionais, como a feita por Lula no seu primeiro ano de governo, tendo Antônio Palocci como ministro da Fazenda, não funcionou. Em 2015, mesmo com Joaquim Levy, um economista liberal, no Ministério da Fazenda, e tendo feito o maior corte de despesas públicas da história econômica recente do País, a economia afundou – o PIB caiu 3,8% em relação ao ano anterior.

Para completar o desastre, a presidente Dilma perdeu o controle de sua base política: seu vice-presidente, Michel Temer, debandou para o lado dos defensores do impeachment. Uma horda crescente de opositores se formou, animada pelas denúncias de duas supostas ilegalidades que serviriam de pretexto para seu afastamento do cargo pelo Senado: atrasos de pagamentos pelo Tesouro ao Banco do Brasil, transformados em empréstimos para financiamento do governo, e decretos de crédito suplementar assinados por ela e tidos também como ilegais.

Nossa economia parece recuperar-se, mas às custas do aprofundamento do modelo econômico brasileiro de exploração do trabalho e da integração subordinada do País aos mercados mundiais. O governo atual prevê o congelamento dos gastos em educação e saúde pelos próximos dez ou 20 anos, a ampliação da idade mínima para as aposentadorias e o afrouxamento das regras para a terceirização do trabalho. A despeito da recessão, o Banco Central (BC) mantém os juros de curto prazo no nível mais alto do mundo. É bom lembrar que nos 12 meses terminados em janeiro de 2016 o Brasil pagou mais de 500 bilhões de reais de juros. E, para atrair capitais de fora, garantindo-lhes que haverá dólares para repatriar seus lucros quando quiserem sair do País, mantém aplicados, no exterior, a juros baixíssimos, cerca de 370 bilhões de dólares, que capta a custo altíssimo, graças a um grande esforço exportador da economia nacional.

A Editora Manifesto encarou a crise com determinação. No final de 2014, vimos que nosso principal produto, RB, tinha se inviabilizado. A partir de janeiro de 2015 passamos a trabalhar com um núcleo profissional mínimo, com o objetivo de acumular recursos para discutir nacionalmente um novo projeto jornalístico. Em fevereiro de 2016, RB foi suspensa. Desde então fizemos várias reuniões que mobilizaram cerca de 60 pessoas em Brasília, Belo Horizonte, São Paulo, São José dos Campos e Rio de Janeiro. Quais nossas principais conclusões, até agora?

Nosso trabalho ao longo dos últimos 20 anos nos deixa um legado importante de conhecimento jornalístico em todas as áreas, da política à economia, da cultura às ciências, das condições de vida dos trabalhadores às transformações do meio ambiente. Você vê esse trabalho na Coleção das revistas Reportagem e Retrato do Brasil que se encontra no DVD que acompanha o livreto de lançamento da campanha e no site editoramanifesto.com.br.

Nos últimos anos, trabalhamos com uma equipe de uma dúzia de profissionais, a um custo total aproximado de 100 mil reais mensais. Mas a publicação mensal tem pouca presença na conjuntura e outra grande desvantagem: sua receita mensal só permite sustentar profissionalmente uma pequena equipe. E uma equipe maior é essencial. Com a internet, a velocidade de circulação das informações mudou brutalmente. Como dissemos, no quinto aniversário de nossa fundação, a Editora Manifesto “surgiu com o propósito de aglutinar um grupo de apoiadores e profissionais de jornalismo, propaganda e administração diversificado e amplo, capaz de construir uma moderna empresa de comunicações, para acompanhar o processo de globalização em curso a partir do ponto de vista dos trabalhadores”.

Hoje, para acompanhar, com matérias jornalísticas de qualidade, os múltiplos aspectos sociais, políticos, econômicos e culturais da conjuntura, é preciso uma grande e afinada equipe, não só para os trabalhos jornalísticos tradicionais de reportagem e entrevistas de campo, como também para pesquisa e intervenção na internet à qual a população está ligada a toda hora.

Ao longo desses 20 anos participamos de inúmeros trabalhos. Fizemos uma espécie de jornal diário, pela internet, com uma descrição precisa e objetiva dos fatos mais relevantes do dia a dia nas diversas áreas do conhecimento – e cinco comentários especiais, de segunda a sexta-feira, sobre a conjuntura econômica e política. Trabalhamos com parceiros: inicialmente, para produzir uma reportagem especial mensal de impacto, junto com a revista Caros Amigos; posteriormente, com o semanário CartaCapital, para produzir um texto mensal de reportagem com um tema para o qual era necessário aprofundamento. Ao longo do processo de impeachment no Senado, produzimos uma série “O impeachment de Dilma”, com oito matérias semanais, no site brasil247.com.

Nosso objetivo, agora, é ter, num prazo médio, dois anos, recursos para sustentar uma equipe jornalística para produzir um semanário: três a quatro dúzias de pessoas, com capacidade para acompanhar a conjuntura do dia a dia, intervir semanalmente com a produção de três a quatro dúzias de notas e ao longo do ano escrever ainda uma dúzia de textos de aprofundamento de temas mais complexos. Esse objetivo exigiria uma receita de aproximadamente 400 mil reais mensais, o que equivaleria a 10 mil contribuições de 40 reais por mês.

Para uma comparação: em julho de 1980, em plena abertura política e com o Regime Militar em crise, quando fez uma convenção anual para rediscutir seu projeto jornalístico, Movimento tinha 285 colaboradores regulares, entre as áreas editorial (redação, arquivo, arte), administrativa e comercial. E tinha correspondentes em duas dúzias de cidades do País.

Esperamos que a venda e a discussão provocada por este produto seja o início da caminhada para a concretização de um novo projeto jornalístico que tenha como parâmetros a independência nacional, a democracia e a elevação do padrão de vida material e cultural dos trabalhadores. Essa é uma necessidade urgente, dada a situação dramática vivida pelo País.


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Uma resposta para “1 – Por que um semanário em defesa da independência nacional, da democracia e da elevação do padrão de vida material e cultural dos trabalhadores”

  1. Manoel Marques disse:

    Capital financeiro positivamente não é meu forte, mas gostaria de colaborar com o Novo Projeto de pessoas tão comprometidas com a informação e a soberania de nosso país.
    Coloco-me humildemente à disposição das pessoas que conduzem tal Novo Projeto.
    Até breve.

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