4 – A mudança de conjuntura

Lula subiu ao poder após assumir um enorme compromisso com os credores internacionais do País, na “Carta ao povo brasileiro”, publicada antes da eleição presidencial de 2002: pagar-lhes tudo que tivesse sido acertado pelo governo de seu antecessor. A dívida brasileira tinha sofrido grandes transformações. Para entendê-las pode-se usar o que escrevemos na versão mais recente da enciclopédia Retrato do Brasil, publicada em 2005. O Brasil dos generais, dissemos então, tinha tomado dinheiro emprestado de cerca de mil bancos. Eram contratos assinados entre o País e cada banco. Com a crise, que não era só do Brasil, mas de inúmeros outros países do Terceiro Mundo, dezenas desses bancos passaram a ter em suas carteiras papéis que, de fato, valiam apenas uma fração do seu valor de face. E, assim, ficaram também ameaçados de falência.

Um plano americano, conhecido pelo sobrenome do seu então secretário do Tesouro, Nicholas Brady, propôs então – para salvar os bancos, é claro – que o governo dos EUA oferecesse algumas garantias para esses papéis e que os governos dos países endividados mudassem suas regras e aceitassem a substituição dos velhos títulos de dívida por títulos novos, que pudessem ser negociados livremente no mercado. No Brasil, os chamados Brady bonds só começaram a ser assinados depois que o governo neoliberal de Fernando Collor de Mello subiu ao poder, em 1990.

Collor colocou no comando da economia brasileira uma tropa de grandes financistas: Marcílio Marques Moreira, no Ministério da Economia; Francisco Gros, na presidência do BC; Armínio Fraga, na área externa do BC; e Pedro Malan, que estava no Banco Mundial, no posto de negociador da dívida externa brasileira.

Com a renúncia de Collor, os financistas voltaram a seus postos na alta finança global: Moreira e Gros foram para dois grandes bancos de investimento de Wall Street, o Morgan Stanley e o Merril Lynch; Fraga foi dirigir um ramo de negócios de George Soros; e Malan, depois de ser presidente do BC e ministro da Fazenda de FHC, foi para o Unibanco. Mas essa solução para a dívida externa passou longe da solução dos problemas dos países da periferia capitalista. Ao contrário, os agravou. O patamar de rendimentos enviados ao exterior resultantes dos capitais aplicados no Brasil, por exemplo, que era de 5 bilhões de dólares anuais nos anos 1970, pulou para cerca de 10 bilhões de dólares no período entre a primeira e a segunda renegociações da dívida externa (1982-1984) e para mais de 15 bilhões de dólares de 1995 a 2004.

Dizia-se que a grande liberdade para entrada e saída de capitais no Brasil, que se instaurou com as reformas liberais, serviria para reduzir as remessas clandestinas, feitas através do chamado câmbio negro. Isso também não aconteceu. Uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI), também chamada de CPI do Banestado, por ter apurado especialmente movimentações clandestinas feitas através da agência de Foz do Iguaçu do Banco do Estado do Paraná, descobriu que cerca de 10 mil pessoas e empresas tinham burlado a legislação. Com base na quebra do sigilo bancário dessas contas, a Receita Federal calculou e iniciou a cobrança de 224 bilhões de créditos tributários, uma quantia equivalente a cerca de mil vezes as mais altas estimativas para a quantidade de dinheiro que teria sido distribuída ilegalmente no esquema do publicitário Marcos Valério, o principal condenado no caso do mensalão.

O governo petista não agiu contra essa sangria de recursos da economia do País. Ao contrário, nomeou Henrique Meirelles como presidente do BC, um liberal, ex-chefe de operações internacionais do BankBoston. Meirelles foi acusado pelo senador Antero Paes de Barros (PSDB-MT), presidente da CPI do Banestado, de ter operado a evasão de 1,37 bilhão de dólares para o banco que dirigia no final de 1998, quando o Brasil quebrou. Uma espécie de empresa laranja do BankBoston no Brasil, a Boston Comercial e Participações Ltda., enviou essa quantia a uma filial do banco, no paraíso fiscal de Nassau, para fugir da desvalorização cambial iminente naquela época. E usou para isso uma das milhares de contas especiais que acabaram sendo investigadas pela CPI do Banestado posteriormente. Para livrar Meirelles da ação de procuradores que o acusavam, o governo Lula elevou a condição legal do presidente do BC para a de ministro, o que lhe deu o foro privilegiado do STF e impediu que prosseguisse um processo contra ele na primeira instância.

Vários artigos na revista Retrato do Brasil ao longo das administrações de Lula e de Dilma criticam o fato de o governo não atacar o problema da dependência. Alguns deles merecem ser relembrados:

Ainda sem rumo (edição 33, abril/2010)

Manifesto por um novo semanário - Ainda sem rumoO argumento central do artigo pode ser resumido da seguinte forma: a ditadura militar dos anos 1964-1985 afastou o Brasil da rota do desenvolvimento nacional independente; mas, em 2010, com 25 anos de Nova República, o País ainda não reencontrara esse caminho. O artigo mostra a transformação operada nos rendimentos dos capitais estrangeiros aplicados no País antes e depois do período de renegociação da dívida externa, entre o começo dos anos 1980 e o início da década seguinte. Antes, o capital estrangeiro entrava no Brasil basicamente na forma de empréstimos bancários e de investimentos diretos de empresas. E saía na forma de juros dos empréstimos e de lucros dos investimentos. Com a ampla liberdade de entrada e saída de capitais que se operou a partir dos governos liberais de Collor e de Fernando Henrique, e com a consolidação dessa liberalização financeira pelo governo Lula, multiplicaram-se os canais de entrada e também os de saída de capitais. Além das entradas na forma de empréstimos e investimentos diretos, e das saídas na forma de juros e lucros, avolumaram-se extraordinariamente as entradas na forma de aplicações em “carteira”, como se diz no jargão financeiro – em ações e títulos de empresas brasileiras e de títulos da dívida pública emitidos pelo Tesouro Nacional –, assim como as saídas na forma dos rendimentos correspondentes.

O argumento de figuras destacadas do governo Lula quanto ao aumento da dependência do País desses capitais e a perspectiva da ocorrência de uma crise como a de 1982, posteriormente, era o de que, se os estrangeiros multiplicavam as formas de suas aplicações aqui, nós também multiplicávamos a forma das nossas aplicações e a criação de sucursais de nossas empresas lá fora. No artigo, rebatemos esse argumento de forma prática: se é verdade que as transformações tinham mudado de forma tanto em relação aos investimentos dos estrangeiros no Brasil, quanto em relação aos dos brasileiros no exterior, no conteúdo havia uma diferença brutal. O total dos investimentos e dos rendimentos do capital estrangeiro no Brasil era muito maior do que o total dos investimentos e dos rendimentos dos brasileiros no exterior. Enquanto o investimento direto estrangeiro acumulado no Brasil no período 1995-2009 cresceu de pouco menos de 50 bilhões de dólares para mais de 400 bilhões e o rendimento desses investimentos oscilou entre 4,1% e 10,0% ao ano, nesse período os investimentos diretos acumulados no exterior por empresas brasileiras cresceu de cerca de 50 bilhões de dólares para 160 bilhões e seus rendimentos oscilaram num patamar cinco vezes mais baixo, entre 0,8% e 1,8% anuais.

Quanto aos chamados investimentos em carteira, a desigualdade era maior ainda: no mesmo período citado, 1995-2009, o investimento estrangeiro em carteira no Brasil passou de cerca de 100 bilhões de dólares para 560 bilhões e seus rendimentos oscilaram na faixa entre 2,7% e 7,3% anuais, enquanto os brasileiros passaram de 55 bilhões de dólares para cerca de 270 bilhões, mas seus rendimentos anuais ficaram numa faixa com aproximadamente a metade do tamanho da dos estrangeiros, entre 1,2% e 4%. Destacamos ainda que o grande investimento brasileiro em carteira no exterior nesse período se deu na forma de aplicações do BC em títulos do Tesouro americano, para formar reservas monetárias que funcionam como garantias para que os estrangeiros percebam, a qualquer tempo, que o Brasil tem dólares disponíveis para que comprem e deixem o País em caso de crise. Por isso, são aplicações muito seguras e de baixo rendimento.

No mundo do dinheiro graúdo (edição 60, julho/2012)

Em meados do segundo ano do primeiro mandato da presidente Dilma, RB foi à sede do BC visitar “o” Selic. Explicamos: “a” Selic é a taxa de juros diária paga pelo BC nas aplicações que recebe no overnight, de um dia para o outro. Já “o” Selic (Sistema Especial de Liquidação e Custódia) é, na definição do próprio BC, “um sistema informatizado” destinado “à custódia” de títulos emitidos pelo Tesouro Nacional, bem como “ao registro e à liquidação de operações com esses títulos”. Explicamos ainda: o Selic não trata do dinheiro de um “zé mané” qualquer, que usa moedas, notas e cartões de débito ou crédito nos milhões de contas dos bancos comerciais. O Selic, um sistema computadorizado especial, é “o guardião do verdadeiro dinheiro do mercado financeiro, o dinheiro de bancos, corretoras e seus clientes”, que rende juros diários aplicado em títulos da dívida pública brasileira – hoje perto de 3 trilhões de reais, poderíamos completar agora e que pagaram, como já dissemos, 540 bilhões de reais de juros no período de 12 meses terminado em janeiro de 2016.

Qual o interesse de RB ao fazer aquela visita? Pelas nossas contas, o capital estrangeiro parecia desconfiado da política econômica do Brasil e ensaiaria um movimento de fuga. RB mostrou a um dos diretores do BC, que nos atendeu, dados da chamada Posição Internacional de Investimentos, que o banco compila e que dá o volume, em dólares, dos investimentos estrangeiros no Brasil em todas as modalidades, diretos, em carteira, em empréstimos a juros. Havia 1,6 trilhão de dólares em junho de 2009 e, um ano mais tarde, 1,4 trilhão de dólares – ou seja, 200 bilhões de dólares teriam saído do Brasil naqueles 12 meses.

RB perguntou então ao diretor do BC se não estaríamos vivendo um momento crítico, parecido com o das dificuldades enfrentadas pelo Brasil a partir do segundo semestre de 2008, quando a cotação da moeda americana começou a subir devido à grande fuga de capitais do País, decorrente da grande crise financeira que se desenvolvia então no centro do sistema capitalista. O diretor, dissemos na matéria, “desconversou”. No dia seguinte ao desse diálogo, no entanto, o governo brasileiro revogou uma política que dificultava a entrada de capitais estrangeiros no Brasil.

Até então, nossas autoridades falavam de um “tsunami monetário” e viam a criação de barreiras contra a entrada de capitais como uma defesa da economia nacional. Com a gigantesca crise financeira ocorrida no centro do sistema entre 2008 e 2009, os países capitalistas centrais reduziram suas taxas de juros para perto de zero. Para livrar-se de uma eventual depressão econômica, começaram a comprar títulos de seus grandes bancos e financeiras, em operações chamadas de quantitative easing. Pagaram essas compras em depósitos remunerados a juros bem baixos nos seus bancos centrais. Desse modo, garantiram a seus grandes capitalistas um rendimento mínimo. E, principalmente, os incentivaram a ir para o exterior, em busca de aplicações mais rentáveis.

Essa política provocou um surto de aplicações nos países emergentes, chamado também de “tsunami monetário”. A presidente Dilma usou a expressão várias vezes, desde que tomou posse, em seu primeiro mandato, no início de 2011. E adotou várias medidas para tentar conter o vagalhão de dólares que se deslocou para o Brasil. Em julho daquele ano, estabeleceu um imposto de 1% sobre operações financeiras com derivativos. Os bancos, especialmente, tomavam dólares lá fora a juros muito baixos e os emprestavam aqui a juros muito altos, casados com um derivativo cambial – um contrato que protegia o tomador das oscilações do câmbio.

O novo imposto tornou mais difícil tomar dinheiro lá fora. Em 1º de março de 2012, o governo criou mais uma dificuldade para os empréstimos externos: taxou em 6% essas captações com prazo menor que dois anos. E, menos de duas semanas depois, ampliou a aplicação da taxa para empréstimos tomados por prazos menores que seis anos. Além disso, o BC foi reduzindo a taxa de juros: em dez quedas sucessivas a Selic foi de 12,75% em agosto de 2011 para 7,25% em outubro de 2012, patamar no qual ficou até março de 2013. A notícia divulgada no dia seguinte ao da visita de RB ao BC, da revogação de um dos impostos aplicados sobre a entrada de capital estrangeiro, significaria que nossas autoridades monetárias estavam percebendo uma mudança no movimento dos capitais internacionais, como uma volta da conjuntura tradicional, de falta de dólares e de ameaça de desestabilização da economia por esse caminho? Como se veria não muito tempo depois, essa ameaça era verdadeira.

O artigo de RB também serviu para revelar mais claramente as relações entre as dívidas externa e interna. Na última parte, o artigo explica a frase de Mário Henrique Simonsen, um dos mais famosos ministros da Fazenda do regime militar, que disse que a dívida interna aleija, mas a externa mata. Através do open market, elevando ou abaixando a Selic, o BC opera os juros. Mas para controlar a inflação ou para controlar o câmbio? Explicamos, então: “Reduzir a taxa de juros pode, com certeza, ajudar a estimular a economia. Neste ano [2012] a estimativa é de que o Brasil cresça a um ritmo igual, se não menor que o do ano passado, que foi de 2,7%. Com isso, a economia volta ao patamar de crescimento baixo da média dos anos dos dois governos do presidente Cardoso, sendo que nos dois governos do presidente Lula crescera a uma taxa relativamente melhor, de 4% ao ano”. E a matéria terminava mostrando que a dívida interna custava, de juros, 200 bilhões de reais anualmente. Isto porque, a despeito de a Selic ter caído da média de 19,2% no último ano de FHC, para a média de 9,8% nos governos Lula, uma queda de quase dez pontos percentuais, a taxa de juros paga efetivamente pela dívida pública do País no mesmo período caiu apenas 0,7 ponto percentual, de 15,6% ao ano para 14,9%. E que, com o esforço iniciado em agosto de 2011 pelo governo Dilma, que rebaixou a Selic de 12,75% para 8,5% no final de maio de 2012, uma queda média de mais de quatro pontos percentuais, o custo médio efetivo da dívida pública caiu apenas 0,2 ponto percentual, ou seja, cerca de 20 vezes menos.

Por que isso? A matéria explica: boa parte da dívida pública tinha sido feita para acumular reservas em dólar, como garantia para o capital estrangeiro que tivesse medo de entrar se não visse reservas substanciais que pudesse comprar para sair sem que o dólar disparasse. E mais: para não elevar muito o estoque da dívida interna existente, pela emissão de títulos novos, o BC comprava os títulos de prazo mais longo que já estavam na praça. Fazia as chamadas “operações compromissadas”. Trocava os títulos de longo prazo, que pagavam juros mais baixos, oferecendo títulos de prazo mais curto. E esses títulos de prazo mais curto só eram aceitos pelo mercado, que percebia neles as dificuldades vividas pela economia do País, se pagassem juros maiores.

Juros maiores nos papéis de curto prazo do que nos papéis de longo prazo são, como RB mostrou em inúmeros artigos, uma anomalia tropical. Decorrem do tipo de ajuste que supostamente teria estabilizado a moeda nacional, ancorando-a no dólar, a partir da decisão do grupo de especialistas de Wall Street colocados no BC brasileiro, de elevar as taxas de juros de curto prazo para as maiores do mundo, patamar no qual elas se mantêm até agora.

A maldita dependência (edição 78, janeiro/2014)

Manifesto por um novo semanário - A maldita dependênciaNo início de 2014, ano no qual a presidente Dilma seria reeleita, RB publicou o “Ponto de Vista” intitulado “A maldita dependência”, que traz a seguinte frase: “Após uma folga aparente, os grilhões da velha dependência financeira do País voltam a incomodar”. Na matéria, Paulo Leme, o presidente no Brasil do Goldman Sachs, o maior banco de investimentos de Wall Street, fala de “um desacerto geral” das contas macroeconômicas brasileiras. Nas contas internas estava ocorrendo uma queda da poupança doméstica e do superávit primário, o saldo entre receitas e despesas do governo usado para pagar juros. Nas contas externas, medidas pelo balanço de pagamentos do País com o exterior, ocorreu a mudança de uma posição superavitária, no começo do primeiro governo Lula, para uma crescentemente deficitária, no final do segundo governo Lula, e que se aprofundou nos três anos do governo Dilma, chegando ao déficit equivalente a 3,7% do PIB na chamada conta corrente.

Nessa matéria examinamos detalhadamente as contas do País com o exterior, tanto as do balanço de pagamentos, onde estava o déficit em conta corrente citado pelos porta-vozes do mercado, como as de outro conjunto de estatísticas do BC, denominado “Série histórica da posição internacional de investimentos”, que apresenta o total e as diversas formas do capital estrangeiro investido aqui, bem como o total e as diversas formas de capital brasileiro investido no exterior.

O balanço de pagamentos mede os fluxos anuais de dinheiro para dentro e fora de um país. Tem duas rubricas básicas: a conta de capital, onde são contabilizados empréstimos e amortizações; e a conta corrente, que inclui os bens importados e exportados, e as receitas e despesas anuais de serviços e rendas. Nos serviços estão itens como transportes internacionais, turismo, aluguéis de máquinas e outros. E nas rendas, que se considera serem serviços do capital, estão os lucros e dividendos, royalties e juros. A série com a “posição dos investimentos” mostra, por tipos, os estoques dos investimentos dos estrangeiros, aqui, e dos brasileiros, lá fora.

O que mostrava a evolução da conta corrente no período 2002-2012? Primeiro, um déficit geral crescente, de 7,6 bilhões de dólares para 52,4 bilhões de dólares. Nas exportações e importações de bens, em 2012 o Brasil ainda tinha saldo positivo (para 2013, a previsão era de que ele praticamente desapareceria, como de fato ocorreu – e com piora em 2014 e 2015). O buraco na conta corrente se devia, fundamentalmente, aos serviços e rendas, cujo saldo tinha saltado de um déficit de 23 bilhões de dólares para um déficit bem maior, de 76 bilhões de dólares. Em todas as subcontas desses dois itens – serviços e rendas –, o Brasil obtinha do exterior muito menos do que pagava. As despesas com o aluguel de máquinas do exterior, por exemplo, se multiplicaram por 15, saíram de 1,2 bilhão de dólares para 18,8 bilhões de dólares. Enquanto isso, o País recebia pelo aluguel de suas máquinas ao exterior algo como 65 milhões de dólares por ano, ou seja, 300 vezes menos. Era um sinal claríssimo da dependência tecnológica do País.

A dependência podia ser vista também por outro viés, o da posição de investimentos. Fizemos uma comparação dos ativos brasileiros no exterior com a dos ativos de estrangeiros no Brasil, em quatro épocas: a do final do último governo FHC, dezembro de 2002; as dos finais do primeiro e do segundo mandatos de Lula, em dezembro de 2006 e em dezembro de 2010; e a da época do artigo, término do primeiro semestre do terceiro ano de governo da presidente Dilma, em junho de 2014. Aparecia nessa comparação um crescimento espetacular dos ativos brasileiros no exterior, de quase seis vezes. Eles iam de 112,9 bilhões de dólares para 747,6 bilhões de dólares. Mas metade do total de ativos brasileiros no exterior em meados do 2013 era formada por reservas do BC. E mostramos: por essas reservas o governo brasileiro recebia rendimentos mínimos. Elas podiam ser vistas na conta corrente do balanço de pagamentos, no item “Renda de investimento em carteira – receitas”. Eram 4,7 bilhões de dólares. E, embora pequenas, quando comparadas com as rendas do capital estrangeiro no Brasil em geral, constituem o maior item nas receitas de rendas dos ativos brasileiros no exterior.

Finalmente, sobre as posições do investimento estrangeiro no Brasil, destacamos: esses investimentos tinham saltado de cerca de 350 bilhões de dólares para 1,5 trilhão de dólares, pela compra, por empresas e investidores estrangeiros, de participações ou o controle completo de empresas brasileiras e também de ações ou títulos de dívida dessas empresas ou do governo brasileiro. Note-se também que, a despeito da crise representada pela redução dos investimentos estrangeiros em carteira no governo Dilma, em mais de 100 bilhões de dólares (eles eram de 668,5 bilhões e caíram para 558,7 bilhões, do final de 2010 para meados de 2013) e da redução também das suas participações no capital de empresas brasileiras (de 587,2 bilhões para 563,2 bilhões de dólares), o capital estrangeiro ampliou suas formas de exploração do País.

Nesse período de crise citado, os empréstimos intercompanhias, das matrizes estrangeiras para suas filiais no Brasil, dispararam de 95,1 bilhões para 158,5 bilhões de dólares. É isso que explica até mesmo as manipulações financeiras dos chamados “investidores estrangeiros”, que, na verdade, são brasileiros que mantêm o controle de suas empresas em paraísos fiscais e, em relação aos estados nacionais, agem como leitões vesgos, para mamar em duas tetas.

O Brasil no mau caminho (edição 84, julho/2014)

Manifesto por um novo semanário - O Brasil no mau caminhoNessa edição, no começo da campanha eleitoral que reelegeria a presidente Dilma, RB antecipou o que estava por vir: “As contas externas brasileiras seguem um caminho perigoso que pode conduzir a uma crise do mesmo tipo das duas que levaram o País a quebrar, em 1982 e em 1998”. E, ao final, concluímos: “É hora de o País abandonar esse mau caminho, seja ele dirigido pelo atual governo, reeleito, seja por um novo, que o substitua”. O governo, dissemos, diz que está tudo sob controle. “Seu principal argumento é o de que já pagou a dívida externa e, além disso, tem reservas de 370 bilhões de dólares, algo inédito em nossa história e, portanto, tem de onde tirar o dinheiro para fechar o balanço de pagamentos anual. Qual o engodo dessa argumentação?

As reservas não são, de fato, do governo. Não vêm do saldo do dia a dia nas contas do País com o exterior. Como vimos, nesses mais de treze anos de governos petistas, a balança brasileira de transações correntes acumulou um rombo de mais de 300 bilhões de dólares. As reservas, de fato, são dólares comprados pelo BC de tomadores de empréstimos externos. Como os negócios no País só podem ser feitos na moeda nacional, o BC fica com os dólares na forma de reservas e dá a esses tomadores – sejam empresas ou o sistema financeiro local – os reais para as aplicações internas. Tanto os investidores de fora como os tomadores de empréstimo locais têm continuado a alimentar esse processo de formação de reservas em função do grande diferencial de juros que continua havendo entre o que é cobrado lá fora e o que se cobra aqui dentro.”

Do fora FHC ao fora Dilma (edição 100, novembro/2015)

Finalmente, numa das últimas edições de RB, comentamos a nova política econômica que o governo Dilma colocou em prática, ao nomear Joaquim Levy, um liberal, para o comando do Ministério da Fazenda, e iniciar um ajuste que agravou os problemas de crescimento da economia brasileira, mas atendeu aos interesses dos credores internacionais. A tendência das contas externas mudou: houve redução do déficit em transações correntes, que chegara a 100 bilhões de dólares, e teve início, com a queda do consumo e das importações, um processo de formação de um superávit expressivo na balança comercial. Dissemos, então: “Para alguns comentaristas, o ajuste atual tem, pelo menos, um grande mérito: não faltam dólares e não há uma fuga de capitais do País. Mas isso porque eles não veem ou não querem ver o preço que está sendo pago por isso e suas implicações. Desde que percebeu uma guinada no ânimo dos credores do País há pouco mais de um ano, o BC pôs em prática a política de vender swaps cambiais, isto é, de oferecer proteção aos preocupados em acumular dólares para pagar dívidas futuras na moeda americana, com medo de que sua cotação em reais disparasse.

Pois bem, no que deu essa política? Esqueça-se por um momento que a maior parte desses swaps não foi adquirida por industriais que compraram, no exterior, em dólar, a prazo, equipamentos para tornar indústrias locais mais modernas, mas, em 60% do volume, como mostram estudos, por empresas financeiras que estimaram, com razão, que poderiam ganhar dinheiro com esses instrumentos.

O swap cambial é, como se diz no jargão financeiro, um hedge, uma proteção: no caso, era como se o comprador do swap trocasse sua dívida em dólar por um título de dívida em real. O BC assumia o risco de a cotação do dólar subir mais que o fixado no contrato do swap e o comprador do swap ficava com o risco de, ao cobrar seu papel em real do BC, a moeda americana ter subido menos. Como todos sabem agora, a moeda americana disparou. Editorial do diário Valor Econômico publicado no início de fevereiro de 2016 mostra que os prejuízos acumulados pelo BC no ano em operações com esses derivativos na BM&FBovespa já chegavam a 119 bilhões de reais. “As perdas acumuladas [com swaps] em 12 meses até agosto equivalem a 2% do PIB e respondem por cerca de 30% do aumento da dívida bruta do governo geral do período. Essa despesa responde por um quarto dos encargos com juros da dívida pública.” O esforço do ajuste fiscal por meio da geração de superávits primários está sendo consumido pelo prejuízo com os swaps cambiais, concluiu o jornal. “A despesa financeira com esses instrumentos derivativos representa quatro vezes a meta de superávit primário de 2016.”

É pouco?


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